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Vencedor do Grammy dita o ritmo de Michael Keaton em 'Birdman'

Antonio Sanchez, da banda do jazzista Pat Metheny, cria uma trilha sonora inteiramente na bateria

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2015 | 20h27

Michael Keaton caminha pelo teatro da Broadway no qual seu personagem, Riggan Thomas, busca de uma redescoberta na profissão. A câmera de Alejandro González Iñárritu o segue, passos atrás, enquanto as batidas da bateria do jazzista Antonio Sanchez - e só elas - ditam o ritmo de suas passadas. A ação é comandada pelo instrumento em um jazz percussivo, improvisado. De alguma forma, o papel de Sanchez se equivale ao de Iñárritu, quando o assunto é dar ritmo a Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), no primeiro trabalho do músico quatro vezes ganhador do Grammy como compositor de uma trilha sonora. Um trabalho duro, livre e, de início, assustador. “Especialmente porque não tinha para onde olhar, o que ver enquanto criava as músicas”, contou ele ao Estado. “Estava muito preocupado em como conseguiríamos fazer.” 

Desde 2002 como o principal responsável pelas baquetas do Pat Metheny Group, do lendário guitarrista norte-americano, do qual o percussionista brasileiro Naná Vasconcelos já participou, Sanchez nasceu na Cidade do México e apaixonou-se pelo instrumento aos 5 anos. Aos 22, mudou-se para Boston, no Estado norte-americano de Massachusetts, para frequentar a renomada Berklee College of Music. “Eu queria ser o melhor baterista do mundo”, disse ele, sobre o sonho ao mudar de país. “Queria ser versátil, poder tocar qualquer coisa. E, hoje, eu posso dizer que posso, com exceção do heavy metal.” 

A história dele é similar à mostrada em Whiplash: Em Busca da Perfeição, em cartaz no Brasil, que mostra a trajetória de um estudante de bateria (Miles Teller) e suas desventuras com o professor carrasco (J.K. Simmons). Ambos, Whiplash e Birdman, são provas de amor ao ritmo e ao instrumento, embora o primeiro o faça de modo direto. “É muita coincidência, mas não acho que isso vá se repetir em muito tempo”, diz Sanchez, que assistiu ao “rival” e entende que a produção se deixou levar por uma liberdade poética hollywoodiana. “A bateria é um instrumento muito físico, sim, mas nunca vi alguém sangrar daquela forma, como em Whiplash”, analisa. “Qualquer professor que agrida os alunos como ele (personagens de Simmons), atualmente, nos Estados Unidos, seria demitido no mesmo momento.” 

“Mas o que me chamou a atenção neste filme é algo que está faltando”, continua. “Todos os alunos e integrantes da banda parecem assustados, mal-humorados. Há uma competição, é claro, mas ninguém parece gostar do que está fazendo. Somos músicos porque gostamos disso”, completa. 

A relação de Sanchez com Iñárritu começou antes mesmo do primeiro encontro entre eles, que aconteceu durante um voo. O diretor comandava um programa em uma rádio mexicana chamado Magical Nights, ouvido com frequência pelo baterista. Em 2013, Sanchez recebeu uma ligação do cineasta. “Ele me disse que faria esse filme, uma comédia sombria, e gostaria de uma trilha sonora criada inteiramente na bateria.” Sanchez recebeu e leu o roteiro. “Não é como um livro, entende? Não existe muita informação sobre as pessoas e personagens”, conta. Ele compôs temas para cada personagem, imaginando que eles poderiam ser usados quando entrassem diante das câmeras, mas Iñárritu queria algo “mais espontâneo, mais jazz e sujo, sem tanto planejamento”. 


A ideia de uma trilha criada ali, ao sabor dos humores dos próprios personagens é mais uma metáfora para o extremamente metafórico Birdman, cujos segundos, terceiros e quartos sentidos se enfileiram aos borbotões. 

Para a trilha mais livre, o diretor levou Antonio Sanchez a Nova York, para o St. James Theatre, em Manhattan. “Iñárritu descreveu as cenas e resolvi improvisar diante do que ele havia me dito. A primeira montagem do filme se deu com essas gravações e, depois, já com o filme pronto, Sanchez voltou para completar o trabalho. Como jazzista, estou acostumado a reagir ao que está ao meu redor”, garantiu ele. Neste caso, como o personagem de Michael Keaton reage aos dramas externos e internos. “Busquei contar essa mesma história”, completou o músico.

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