"Vem Dançar Comigo" sai em DVD

Baz Luhrmann desembarcou hoje noRio. Nesta sexta-feira, o diretor australiano dá entrevista noCopacabana Palace. Veio promover seu novo filme, Moulin Rouge- Amor em Vermelho, que estréia dia 24 em todo o País. A Foxpromete um lançamento de arromba. Moulin Rouge foi o filmeque abriu o Festival de Cannes deste ano. Nicole Kidman e EwanMcGregor estrelam o novo monumento de Luhrmann ao kitsch. Diantedesse filme, não existem meias-medidas: quem gosta, ama depaixão; quem não gosta, quer queimar as cópias.Exagero, claro,mas diante de Moulin Rouge é 8 ou 80. À espera desse filme,o público das locadoras pode (re)ver Vem Dançar Comigo. Oprimeiro longa de Luhrmann está sendo relançado em vídeo elançado em DVD pelo selo Europa. O disco digital não chega aoferecer grandes extras, mas o que vale são as plumas e ospaetês do próprio filme, aquilo que um crítico chamou, na épocado lançamento (em 1993), de "baile do frufru e do laquê".Luhrmann chegou ao cinema via teatro. Adquiriu reputação comoencenador de óperas. Fez Vem Dançar Comigo carregando nokitsch e depois insistiu na fórmula em Romeu + Julieta, aadaptação da tragédia lírica de Shakespeare que trouxe LeonardoDiCaprio e Claire Danes como os amantes de Verona.O diretor tinha 30 anos quando fez Strictly Ballroom (otítulo original de Vem Dançar Comigo). O filme baseia-se nosconcursos de dança de salão, uma tradição inglesa que foitransplantada para a Austrália. Paul Mercurio é o talentosodançarino que se rebela contra as coreografias imutáveis que afederação de dança impõe nos tais concursos. Ele quer ousar,revolucionar a dança de salão. A parceira o abandona e o quesobra para Scott Hastings, o nome do personagem, é apresentar-secom a feia e desajeitada faxineira da academia.Ela se chama Fran e é interpretada por Tara Morice.Pertence à comunidade hispânica da Austrália, sendo consideradacidadã de segunda por racistas descendentes de ingleses. Sevocê já ouviu falar na fábula do Patinho Feio pode ir sepreparando para o que vai ocorrer no número final: Tara, ou Fran vai se revelar uma bela mulher e uma dançarina deslumbrante,mas isso ainda não é a garantia de vitória para a dupla, pois odirigente da federação é capaz dos golpes mais baixos paradesclassificar os dois concorrentes. Essa é a linha, digamos,dramática da narrativa de Vem Dançar Comigo. No processo,Fran aprende com Scott, mas também lhe ensina algo (ou muito) emtroca. O filme não recua diante de clichê nenhum para darsustentação à frase-símbolo que ela atira na cara do parceiro,quando ele amarela, quase na entrada do salão: "Viver com medoé viver pela metade."Caricatura - Assumidamente ingênuo, o filme seriainsuportável se Luhrmann contasse sua história a sério. Ele nãoincorre nesse erro. O tom de Vem Dançar Comigo écaricatural. A abertura é exemplar: a tela é povoada por paresde dançarinos com figurinos incríveis, pelos adereços, as coresberrantes e os penteados que transformam ops cabelos dasmulheres em autênticos bolos de noiva. Luhrmann deve ter vistoos filmes da primeira fase da carreira de Pedro Almodóvar,quando o cineasta espanhol também carregava no kitsch. Suainspiração é almodovariana, assim como seu projeto consiste emtratar a cafonice com humor inteligente.Não há filme mais brega nem piegas que esse. Almodóvar,quando é brega, transforma o kitsch em metáfora. Luhrmannprefere explorar a graça contida no excesso de ostentação evulgaridade. E seu filme, realmente, não é para ser levado asério. Os dramas dos personagens são tratados como artifícioscênicos, de forma a que o espectador nunca pense que são deverdade. E assim provam que o amor está no ar ("Love Is in theAir"), como informa Billy Joel na canção que encerra essa odeaos sentidos. Claro, Cantando na Chuva, de Stanley Donen eGene Kelly, continua imbatível no posto de maior energético docinema, mas Vem Dançar Comigo talvez seja o segundo: não háfossa que resista à história de Scott e Fran.E isso é, integralmente, mérito da direção, que trabalhacom diálogos que são clichês e situações que beiram oinverossímil, mas assume (e vence) o desafio de envolver opúblico com a vitalidade do impacto audiovisual que Vem DançarComigo provoca. É uma direção cheia de ritmo e isso éfundamental num filme sobre dança. Luhrmann insistiu no kitschem sua incursão por Shakespeare. Transpôs a Veneza do bardo paraa praia de Venice, na Califórnia. De novo exagerou no kitsch,que domina a cenografia e os figurinos. A diferença é que lá eleestava tratando de um texto clássico. Fez o que não deixa de seruma diluição - kitsch -, por mais que seja divertido e atéemocionante acompanhar o romance de Leo DiCaprio e Claire Danes.Ambos possuem química, ou Luhrmann é que sabe construir aquímica entre seus atores, também presente em "Vem DançarComigo". A mesma química que, espera-se, deve acompanhar EwanMcGregor e a bela ex-senhora Tom Cruise no inédito "MoulinRouge".Vem Dançar Comigo (Strictly Ballroom). Austrália,1992. Vídeo e DVD da Europa. O segundo está à venda naslocadoras, por R$ 35,80.

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