Velhos sonhos de um 'Novo Mundo'

Diretor Emanuele Crialese diz que também precisou emigrar para a América para voltar a seu país

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

07 de dezembro de 2006 | 18h23

Houve um tempo, mais especificamente entre o final do século 19 até meados do século 20, em que a Itália era um país que exportava milhares de emigrantes que, àquela época, se lançavam ao mar em busca do que não encontravam em sua terra: trabalho e dignidade. Hoje são milhares de imigrantes que se lançam em direção ao país. Gente do Brasil, da África, do Leste Europeu e até mesmo do Oriente Médio, como os palestinos que naufragaram no Mediterrâneo tentando chegar ao sul italiano, no fim de outubro, chocando a opinião pública européia tamanha a tragédia de ver dezenas de corpos nus em plena praia sem jamais conseguir chegar a seu destino no Velho, mas hoje próspero, mundo.  Veja também:Trailer de 'Novo Mundo'   Há dois séculos, no entanto, muitos europeus buscavam um novo mundo, chamado América. Não é curioso, e irônico, que o mesmo país que ‘exportou’ tantos imigrantes hoje tenha de admitir que o problema dos naufrágios de barcas que portam imigrantes ilegais tenha se tornado rotina. Mais ainda, que a Itália tenha de encarar fatos como o incidente que, também no fim de outubro, envolveu o assassinato de uma italiana por um assaltante romeno, em Roma. O crime tomou tamanha dimensão que desencadeou uma onda de, para dizer o mínimo, antipatia generalizada contra os romenos e discussões sobre as leis de imigração na Europa? "É. De fato. Os italianos foram, certamente, o povo que mais exportou mão-de-obra no mundo. Era quase uma indústria. O governo italiano da época lucrou muito com este ‘negócio da imigração’. Hoje a equação se inverteu. Mas a herança permanece. É um tema que não sai de nosso imaginário coletivo", responde o diretor romano Emanuele Crialese sobre a questão e sobre seu mais recente filme Novo Mundo, que estréia nesta sexta-feira, 7.  O novo mundo perseguido pelos personagens de Crialese é Nova York, para onde parte a família do siciliano Salvatore Mancuso (Vincenzo Amato), que vende tudo para embarcar em busca do sonho de ‘fare l’America’, onde lá já o espera seu irmão. Leva consigo os filhos e a mãe. No navio, conhece a inglesa Lucy (Charlotte Gainsbourg), que precisa ‘encontrar’ um marido para poder passar pelo controle alfandegário americano. No entanto, Crialese nega que queira criar polêmica ou fazer um filme político. "O tema da imigração e da busca por um futuro melhor é universal. No entanto, mais universal ainda é o tema do sonho. É em busca de um sonho que se deixa tudo em uma terra e se parte para outra desconhecida." As questões da imigração sempre rondaram também o cinema italiano. E hoje, não só nos noticiários, está mais do que aceso. Não por acaso, La Sconociuta (A Desconhecida), de Giuseppe Tornatore, o candidato italiano ao Oscar 2008, fala justamente da realidade de uma imigrante ucraniana na Itália. E Cartas do Saara, de Vittoria de Setta (ambos exibidos na Mostra de Cinema de São Paulo) também trata da via-crúcis de um imigrante africano para ser reconhecido como cidadão na Itália.  No filme, em vez de acabar, as agruras de Mancuso e família estão só começando quando eles finalmente aportam em Staten Island, a lendária ilha por onde todos os imigrantes que chegavam aos EUA passavam por uma triagem. "Hoje lá funciona um museu. Mas descobri, quando ainda fazia pesquisas para o filme, que foi lá um dos primeiros, se não o primeiro, lugar do mundo onde cientistas faziam testes para medir a inteligência das pessoas", conta o diretor, que também assina o belo e vigoroso Respiro. "É incrível pensar que isso aconteceu há não tanto tempo. Mas, ao mesmo tempo, é como se tivéssemos, nós, italianos, dado 200 passos para trás nesta questão da imigração. Eu, de certa forma, sou também um imigrante. Disse isso quando meu filme estreou no Festival de Veneza 2006. Para conseguir realizá-lo, tive de fazer cinema nos EUA. Depois me associar à França, para, então, mostrar finalmente um filme meu para o meu público, o italiano", completou o diretor, que estudou cinema em Nova York.

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