Velho cinema italiano brilha em Brasília

O cinema italiano dos anos de ouro e, em certa medida, o dos dias de hoje foi a grande sensação do Festival Internacional de Cinema de Brasília. Durante dez dias, o público pôde refletir sobre o passado de glórias do cinema peninsular e compará-lo à produção contemporânea. O Espaço Itália exibiu duas dezenas de filmes de veteranos como Monicelli, Risi e Scola, passou por Tornatore e Calopresti, e chegou a jovens como Eros Puglielli e Francesco Falaschi. Para evitar o estigma do saudosismo, a curadoria do Festival fez questão de exibir maratona de 400 minutos de vídeos (a série Retratos de Autor) concebidos para colocar, frente a frente, realizadores jovens e a velha guarda (De Santis, Lattuada, Riccardo Freda, Pontecorvo, etc). Mas quem roubou a festa foi mesmo o cinema dos anos de ouro. A mostra em homenagem ao ator Vittorio Gassman (1922-2000) exibiu clássicos da comédia como Os Eternos Desconhecidos, O Incrível Exército de Brancaleone e Aquele Que Sabe Viver e serviu para levar os cinéfilos a uma dura constatação: a Itália já não faz cinema como antigamente. Vai longe o tempo em que o país de Giovanni Pastrone (Cabíria, 1914) era uma potência cinematográfica. Potência estética e industrial. Cineastas de todo o mundo absorviam as lições do neo-realismo e Hollywood atribuía estatuetas (Oscar) a diretores geniais como De Sica e Fellini. Nos anos 60, o público iria em massa prestigiar as comédias de Risi, Monicelli e Scola. Na sessão de Brancaleone (1966), o peso da tradição peninsular se fez sentir em toda sua magnitude. Sala lotada. Cópia novíssima do filme destacava seus imensos méritos: os alucinados figurinos (de corte felliniano!), a coloridíssima fotografia de Carlo di Palma, o roteiro de raríssima inteligência de Scarpelli & Incrocci. E a trilha sonora? Perfeita. Destas que gravamos na nossa memória para sempre. Assim como a música da Pantera Cor-de-Rosa, ou a vinheta da série 007, o tema principal de Brancaleone (Brancaaa, Brancaaa, Brancaleone, Leonnnn....) é patrimônio da humanidade. Embora a comédia seja gênero desprezado no mundo inteiro (confiram nas enciclopédias e listas de premiados em Cannes ou pelo Oscar), Brancaleone é um dos grandes filmes da história do cinema. Os atores estão, todos, geniais. Gassman, um Dom Quixote reinventado nos loucos anos 60, revive, com seu exército de esfarrapados, a mais saborosa e corrosiva das sátiras. Volonté, que nos anos 70 seria o símbolo máximo do cinema engajado, está perfeito como o filho bastardo do imperador bizantino. E o esquelético e mirrado Carlo Pisacane mata de rir com sua impagável interpretação do judeu louco por recompensas financeiras (que nunca chegam). A platéia encantou-se também com cópias novíssimas de Os Eternos Desconhecidos (Gassman e seu comparsas, ladrõezinhos de meia pataca) e Aquele Que Sabe Viver, parceria de Scola e Monicelli. E este encanto fez os maratonistas do Espaço Itália sentirem saudades do cinema peninsular que vai do neo-realismo (1945, ano de Roma Cidade Aberta) até os anos 60, auge do cinema personalíssimo de Fellini, Visconti e Pasolini e da grande comédia (de Monicelli e Risi). O cinema feito pelos herdeiros de Rosselini e Fellini ainda atrai público, mas não consegue sair da imensa sombra que os mestres dos anos 40, 50 e 60 projetaram. Na década passada, a Itália conquistou três Oscars de melhor filme estrangeiro: com Tornatore (Cinema Paradiso, 1990), Salvatores (Mediterrâneo, 91) e Roberto Benigni (A Vida É Bela, 99). Franceses (12 Oscars) e italianos (11) são os criadores mais premiados pela Academia. Mesmo assim, que peso tem hoje o cinema italiano? Que filmes, atores e cineastas peninsulares conseguem influenciar cinematografias e platéias como outrora o fizeram Rosselini e o neo-realismo, Fellini e Pasolini, Antonioni e Visconti? Ou atores como Gassman/Tognazzi/Mastroianni, capazes de garantir com suas presenças carismáticas, a venda de milhares de ingressos? Jacopo Gassman, filho caçula de Vittorio, veio a Brasília para mostrar o documentário La Voce a Te Dovuta (sobre o pai) e apresentar a Retrospectiva Gassman. Ele estuda cinema na New York University e não está preocupado com o peso da tradição do cinema italiano. "Tenho 20 anos e fiz apenas um filme. Nem sei se serei cineasta. Posso ser escritor, roteirista, quem sabe." "Meu pai queria ser escritor. Virou ator porque minha avó, atriz frustrada, fez tudo para que ele realizasse o sonho dela", conta. O jovem Gassman pode não estar preocupado com o peso da tradição do cinema italiano dos anos de ouro sobre sua nascente carreira. Mas a presença de Rosselini, Fellini, Antonioni e Pasolini em sua lista de "filmes mais significativos da história da Itália" (leia abaixo) mostra que ele também tem os anos de ouro em seu cânone particular. Os títulos mais novos de sua lista foram realizados nos anos 70 (Saló e O Terraço). O jovem produtor Danielle Mazzocca, de 30 anos, defensor apaixonado do cinema independente, teme que "um culto exagerado" ao cinema italiano dos anos de ouro acabe por inibir as novas gerações. E, "pior ainda", afaste os espectadores das salas que exibem filmes contemporâneos. "Fizemos questão de trazer curtas-metragens de jovens realizadores e a série Retrato de Autor, pois ela promove o encontro de jovens cineastas com realizadores veteranos. Não podemos viver só do culto ao passado", afirmou. Para mostrar sua sintonia com o presente, Mazzocca, que é casado com a atriz brasileira Cibelle Amaral, está co-produzindo o longa-metragem Subterrâneos, do diretor brasiliense José Eduardo Belmonte. "Vamos gastar, na fase de produção, R$150 mil. Depois, saíremos em busca de recursos para a finalização. É um filme-guerrilha." Mazzocca e Cibelle selecionaram a parte contemporânea do Espaço Itália. "Escolhemos cinco curtas que julgamos representativos da nova geração e recomendamos aos brasileiros que prestem atenção em Eros Puglielle (Um Pesadelo de Almoço) e Pietro Reggiani (O Viciado em Livros). No terreno do longa-metragem, a dupla sugere "atenção especial a Gabrielle Muccino, que realizou três longas e agora contará com produção da poderosa Miramax, em Domenico Procacci, Giacomo Campiotti e Alessandro Piva". O jovem produtor se orgulha do passado de glórias do cinema italiano, mas não se alimenta de saudade. "Por isto estamos batalhando para reconquistar nossa platéia. Nos anos de ouro da comédia italiana, tínhamos 50% de nosso mercado interno e vendíamos nossos filmes para o mundo inteiro. Hoje, num ano de sorte, chegamos a 20%, mas a média tem sido de apenas 15%. Nosso desafio, nesse momento, é ampliar esta fatia de mercado. E como é que se faz isto? Creio que uma boa atitude é investir na nova geração de realizadores", alerta. Isabella Sandri, 43 anos, autora do longa Animais Atravessando a Estrada, cultiva filmes de temática social e preocupa-se com o "olhar feminino". Em seu segundo longa (o primeiro, Il Mondo alla Rovescia, é de 1995) ela deu relevo a estes dois aspectos. Suas protagonistas são uma jovem que comete pequenos atos de delinqüência e uma policial que tenta ajudá-la. No caso de Isabella, além do peso da herança neo-realista e dos grandes nomes dos anos 60, há ainda o desafio de se impor num universo dominado por homens. Lina Wertmuller e Liliana Cavanni conseguiram relativa notoriedade nos anos 70. Hoje, novas realizadoras tentam se impor. Numericamente, o time feminino é cada vez mais expressivo. Mas ainda não cravou um nome capaz de integrar o cânone cinematográfico. Isabella Sandri estudou no Centro Experimental de Cinematografia. Hoje, a instituição (rebatizada de Centro Nacional de Cinematografia) segue formando novas gerações. Muitos italianos, porém, estão de olho em escolas americanas, mais cotadas. A diretora não os condena. "Toda escola de cinema é importante, na medida em que nos ensina a amar o cinema e nos aproxima de pessoas que querem fazer filmes. Aí nascem nossas pequenas e primeiras equipes. Muitas se tornam equipes de toda a vida." Na "família cinematográfica" de Isabella convivem Fellini e Pasolini, Ken Loach e Gianni Amelio, Tarkowski e Kira Muratowa, Nanni Moretti e Calopresi. "Caminho entre o cinema de temática social e o cinema poético e tive a felicidade de ser aluna de Amelio.", acrescenta.

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