'Velho Chico' e 'Big Jato' celebram Marcélia Cartaxo

Atriz veterana interpreta a mulher do Velho, personagem do longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2016 | 03h00

Atriz, diretora, mulher. Marcélia Cartaxo mostrou no Recife seu curta Redemunho. É uma pequena (pela duração) obra-prima. E aqui só um parêntese – havia dois grandes filmes no Cine PE deste ano, o longa Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho, e o curta de Marcélia. Nenhum deles venceu o festival, o que levantaria uma interessante discussão sobre a autoridade dos júris. Marcélia está na novela das 9, Velho Chico, na qual reencontra José Dumont, seu parceiro em A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, que lhe valeu o prêmio de melhor atriz em Berlim e lhe garantiu projeção nacional e internacional. E Marcélia também está em Big Jato, o longa (admirável) de Cláudio Assis, que estreia nesta quinta, 16, em salas de todo o Brasil.

Marcélia conversa pelo telefone com o repórter. Está no hotel, no Rio, à espera do carro da produção que vai levá-la para as gravações de Velho Chico. É seu terceiro trabalho com o diretor Luiz Fernando Carvalho, após Pedra do Reino e Alexandre e Outros Heróis. “É um diretor de processo, que valoriza muito a dramaturgia e o ator. Com ele, a gente trabalha a concentração, a observação. O Luiz exige que a gente trabalhe a memória corpórea e a memória da emoção. Ser dirigida por ele é sempre enriquecedor.” Mas ela entende a insatisfação dos que acham que há pouca Marcélia, e pouco Zé Dumont, em Velho Chico. “Tento sempre fazer o melhor com o que tenho, mas os protagonistas movimentam as tramas e, depois, ainda vem a edição. Muita coisa que a gente faz, e gosta, some. Mas eu espero que o Benedito (Ruy Barbosa, o autor) crie um final emocionante para a gente.”

Num encontro no Rio, com o repórter, na semana passada, Matheus Nachtergaele havia feito um tremendo elogio a Marcélia. “A gente a vê tão pouco no cinema. Sinto falta. Marcélia me comove com sua humanidade, seu talento.” Big Jato é sobre o rito de passagem, narrado por um garoto que chega a uma encruzilhada. Permanece no sertão ou parte, em busca do mar – o mar metafórico, de múltiplos significados. O garoto tem esse pai que conduz o caminhão, o Big Jato, que recolhe m... Matheus Nachtergaele é quem faz o papel. Mas Matheus, além do ‘Velho’, é também o tio, Nelson, o radialista que tece a lenda dos Betos, a banda que deu a bússola aos Beatles.

“A gente queria usar a música dos Beatles, mas uma só música saía mais cara que o filme todo. E aí criamos os Betos”, explica o diretor. E Cláudio Assis diverte-se – “Pernambucano é assim. Temos essa mania de grandeza. O Atlântico? É só uma extensão do Capiberibe (o rio que banha o Estado)”. Claudião tem essa fama de bêbado, machista. “Eu entendo ele, as loucuras dele. Para mim, é como um irmão. E, por debaixo daquela couraça, é uma criança. Você precisa ver o Cláudio com os meninos (os atores mirins) no set. É todo sensibilidade.” Marcélia faz a mãe, a mulher do Velho. E o filme, a despeito da fama do chauvinista, é sobre a vitória da mulher. A mãe vende ‘produtos’ (de beleza). O perfume contra a m... O perfume termina vencendo em Big Jato.

De cara, o filme começa com uma conversa entre pai e filho na boleia do caminhão. E depois tem uma cena de refeição no início e outra no final. A forma como Cláudio Assis filma essas cenas – o movimento de câmera na segunda refeição – faz dele, talvez, o maior diretor do cinema brasileiro. Ninguém filma tão bem no País como esse ‘bruto’ (leia a entrevista ao lado). Até nisso Marcélia entende seu diretor. “O Cláudio teve a mesma origem pobre minha. Isso cria uma revolta. Não é o desejo de querer o que os outros têm. É o sentimento de injustiça, de que algo, ou muito, nos está sendo negado.” Marcélia é filha de costureira e agricultor. A mãe foi guerreira. “O pai bebia e a gente ia atrás dele, para proteger.”

Caçula numa família de cinco filhos, Marcélia foi, como diz, resguardada. Via o mundo da janela de casa. Um dia foi para o mundo. Formou um grupo de teatro com os amigos e vizinhos de Cajazeiras, quase na divisa da Paraíba com o Ceará. Daquele grupo, muita gente virou ator de verdade. Representar virou a vida de Marcélia. A mãe alimentou suas imaginações, e é curioso que ela coloque a palavra no plural. Hoje, Marcélia grava no Rio, mas segue morando em João Pessoa, na casa que a mãe recebeu num programa de habitação popular e que ela melhorou com seu trabalho. Permanece ligada à terra – o grupo de teatro chamava-se Terra. Marcélia sonha fazer um longa sobre sua mãe como representação da mulher nordestina. Há muito dela na personagem de Big Jato. Na despedida, carinhosa, Marcélia deseja ao repórter – “Um cheiro pra tu”.

ENTREVISTA

Matheus Nachtergaele, ator - 'Cláudio Assis é como a flor do mandacaru'

Matheus Nachtergaele tem estado em todos os filmes de Cláudio Assis. A novidade é que, em Big Jato, está em dose dupla.

Como é essa parceria com Cláudio Assis, que já dura tanto?

Claudião me desafia oferecendo papéis exigentes, mas ele se exige muito mais. Estou em todos os filmes dele. Seria o protagonista de A Febre do Rato, mas foi a única vez que lhe disse não. Aquele poeta é o Cláudio, tinha de ser o Irandhir (Santos). O Cláudio me perguntava - “Mas como vou fazer sem você?”. Escolhi um papel menor, para estar no filme, e não me arrependo.

Como foi fazer dois personagens em Big Jato?

Nelson e o Velho são muito diferentes. Pedi, o que parecia impossível, mas a produção concordou, que a gente filmasse cada personagem de uma vez. Todo o Nelson, todo o Velho. Só bem no fim, no último dia, a noturna do cabaré, tive de fazer os dois. Temia não dar conta.

Claudião tem essa fama de machista. 

...E eu digo que ele é espinhento como mandacaru, que dá aquela flor linda. Cláudio é a flor do mandacaru.

 

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