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Homenageado na Mostra, Paul Vecchiali traz beleza convulsiva em seus filmes

Vencedor do Prêmio Leon Cakoff define-se como ‘um franco-atirador’ e exibe seu filme mais recente, 'Os Sete Desertores, ou A Guerra a Granel'

Luiz Carlos Merten, Impresso

24 Outubro 2017 | 04h00

Paul Vecchiali era garoto, tinha 6 anos quando a mãe o levou para ver Mayerling, a versão de Anatole Litvak, com Danielle Darrieux e Charles Boyer. Ele não tinha a menor noção do que era cinema nem como se fazia, mas surpreendeu a mãe, na saída, ao dizer que era o que queria fazer.

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O ano era 1936 e mais de 40 anos mais tarde, em 1978, Vecchiali, que já se tornara diretor, estava numa crise medonha. Não via futuro para ele no cinema, estava pensando em parar. Houve uma retrospectiva de seus ainda poucos filmes e ele ouviu – adivinhe de quem? Danielle Darrieux! – a intimação. “Nem pense em parar...”

Passaram-se mais 40 anos – quase – e Paul Vecchiali está na cidade, homenageado pela 41.ª Mostra. Na noite desta segunda, 24, no Cinesesc, ele recebeu o Prêmio Leon Cakoff, que leva o nome o criador do evento. No início da tarde, havia se encontrado com o repórter. Emocionou-se ao falar sobre Danielle, a mítica estrela francesa que morreu na semana passada, com mais de 100 anos. Em Paris, após o Festival de Cannes, havia uma retrospectiva de Danielle na Filmoteca do Quartier Latin e repórter assistiu a muitos de seus filmes dirigidos por Henri Décoin, Julien Duvivier, Claude Autant-Lara e, claro, Max Ophuls. Tirando o último, os anteriores pertenciam à chamada velha onda do cinema francês e foram fustigados por François Truffaut em seu célebre artigo contra o ‘cinema de qualidade’.

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Nada como o tempo. “Hoje, eles estão voltando e estão sendo revalorizados, você sabe”, diz Vecchiali. Aos 87 anos, ele não é nenhum velho blasé, que vive acomodado, curtindo as homenagens. Os olhos brilham. Lembra que foi crítico e escreveu uma enciclopédia de cinema justamente recuperando esses diretores dos anos 1930. O repórter conta quer viu duas vezes Madame De na retrospectiva da Filmoteca. Madame De! “É o mais belo dos filmes”, concorda. Em maio, antes de Cannes, ele foi homenageado no IndieLisboa, e a cidade abrigava uma retrospectiva de Kenji Mizoguchi. O repórter estava lá. Reviu A Rua da Vergonha, O Intendente Sansho. “Pare, que vou chorar”, diz Vecchiali. “Sansho é o filme da minha vida. Vi umas 200 vezes. Sei todos os diálogos”, confessa.

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Sua fama é de ‘franc tireur’, franco-atirador. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard observa que, trabalhando sobre uma diversidade muito grande de temas – “Não gosto de me repetir” –, Vecchiali exibe uma visão de mundo original, eminentemente subversiva, “na medida em que tudo, inato e adquirido, colabora para desvendar o real daquilo que o obscurece”. Ele desmistifica outra coisa que diz Tulard – sobre a falta de recursos que aflige seu cinema, e o coloca na rubrica dos ‘malditos’. “Tive a chance, na minha vida, de fazer filmes de muito sucesso. Rosa la Rose, sobre prostituição, bateu recordes e os produtores queriam que eu repetisse a dose. Descartei de cara. Não faço cinema pelo dinheiro.”

A quase totalidade de sua obra para cinema é formada por roteiros originais, mas ele adaptou Dostoievski – em Noites Brancas no Píer. Por falar em Noites Brancas, o repórter lembra o filme de Luchino Visconti – com Marcello Mastroianni, Maria Schell e Jean Marais. Vecchiali tem uma admiração irrestrita por Visconti – Sandra, ou Vagas Estrelas da Ursa, com Claudia Cardinale, é outro de seus grandes filmes.

Mas, dos italianos, ele ama mesmo é Valerio Zurlini – Verão Violento, Dois Destinos. “Choro toda vez que vejo Sylvie abraçando os dois netos.” Ainda sobre adaptações, Vecchiali diz que as dele foram principalmente para TV. Ri contando que deu a volta ao mundo acompanhando retrospectivas de seus filmes. “Sabe quantas (retrospectivas)? 174!”

Até por ter sido, e ainda ser, crítico, sabe que tem filmes ruins. “Faz parte.” O importante é que os bons são ótimos. Vecchiali apresenta em São Paulo seu filme mais recente, Os Sete Desertores, ou A Guerra a Granel. Provocativo, como sempre, o autor pode fazer sua a frase de Georges Bataille. ‘A beleza será convulsiva, ou não (será beleza).’ Nos seus filmes, é.

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