Variações estéticas no panorama da Mostra

Manoel de Oliveira é um dos destaques da 29.ª Mostra BR, que apresenta hoje o mais secreto de seus grandes filmes - O Dia do Desespero é da estatura de Non ou A Vã Glória de Mandar, Vale Abraão, Vou para Casa e Um Filme Falado. Oliveira ilumina o suicídio do escritor Camilo Castelo Branco e usa sua morte para falar da vida. Tudo é rigorosamente real em O Dia do Desespero, já que o diretor se valeu de extensa documentação para elaborar o roteiro, mas tratado como ficção. Isso lhe permite criar imagens como a daquela roda que remete ao mancar da Bovarinha de Vale Abraão, ao quadro que fica vazio por alguns segundos, quando os atores saem de cena em O Espelho Mágico, ou ainda à câmera que se concentra nos sapatos de Michel Piccoli, num momento decisivo de Vou para Casa. Há sempre essa preocupação pelo tempo e pelo quadro, que desencadeia outras formas narrativas que não aquelas ditadas pelo consumismo hegemônico de Hollywood. A estética violenta de Hong KongAs estéticas em implosão do diretor de Hong Kong Johnnie To e do brasileiro João Falcão e Marcelo Gomes também são atraentes. Em Cannes, no ano passado, Johnnie To provocou sensação com Breaking News, quando reinventou Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, para falar sobre o conflito entre gângsteres e policiais na sociedade da imagem. Em maio, To voltou à Croisette com o explosivo Eleição. As tríades (organizações criminosas), ele explicou ao repórter do Estado, não apenas existem há muito tempo em Hong Kong como se constituem numa peça importante da história e da cultura. Associadas à sociedade chinesa como um todo, mobilizam os homens e concentram poderes e recursos, como um partido político. Quando ocorrem mudanças, as tríades tratam sempre de se adaptar. Tudo o que Johnnie To diz ajuda a entender como e por que o gênero policial é tão forte no cinema de Hong Kong. A morte do chefão, em Eleição, desencadeia uma violenta disputa entre os dois principais aspirantes ao cargo. O violento processo eleitoral envolve toda a sociedade, o que engloba seus aparelhos de informação e repressão, a mídia e a polícia. A poesia de João Falcão em "A Máquina"Não é o poder que está em jogo em A Máquina, a menos que seja o da imaginação, presente na história de Antônio, que se antecipa ao desejo da sua amada Karina. Ela quer deixar a pequena cidade do sertão para conhecer o mundo. Antônio se antecipa e tenta buscar o mundo para ela e aí entra a máquina, a TV, embora o mecanismo do título não se refira só a isso, bem entendido. O diretor e roteirista João Falcão opera em várias mídias (teatro, televisão e cinema). Aqui, ele adapta, mais que o seu espetáculo, o livro de sua mulher, Adriana Falcão. Conta a história de amor de Antônio e Karina, que, de tão intensa, parece irreal, com Paulo Autran, Gustavo Falcão e Mariana Ximenes até os coadjuvantes de luxo que são Lázaro Ramos e Wagner Moura0. (Luiz Carlos Merten)O estranho "Palíndromes" de Todd SolondzPalíndromes, o estranho filme do norte-americano Todd Solondz. Neste, temos um mundo mágico no qual os personagens aparecem sob formas diferentes, em cenas sucessivas. Uma maneira linear de ver a história diz que se trata de uma menina, Aviva Victor, de 12 anos, que deseja ter um filho. Ela engravida, mas os pais a obrigam a um aborto. O espectador pode notar que Aviva é um nome palíndromo - quer dizer, lê-se de forma idêntica de um lado como de outro. Essa característica permite a Solondz tratar seus personagens - e a realidade que os cerca - como se fosse um jogo de espelhos. (Luiz Zanin Oricchio) A Máquina. Hoje(26), 20h, no Bombril 1. Amanhã, 23h, no Cinesesc. Sexta, 14h, no Reserva Cultural 2 O Dia do Desespero. Hoje(26), às 19h40, na Sala UOL. Terça (1.º), às 12h30, no Cineclube Vitrine 2 Eleição. Terça (1.º), 19h55, no Unibanco Arteplex 2. Quinta (3), 20h20, na Sala UOL Palíndromes Hoje. 22h10, no Vitrine1. Amanhã, 22h40, na Sala Uol. Terça (1.º), 20h20, no Reserva Cultural2. Quarta (2), 22h, no Vitrine1.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.