Vantagem para filmes latinos em Gramado

E, no quarto dia, fez-se a luz. Desde o começo do 32.º Festival de Gramado, a competição nacional vinha de mal a pior, a tal ponto que o concorrente de segunda-feira - O Quinze, de Jurandir Oliveira, honesto porém tosco - começou a assumir contornos de obra-prima. Na quinta-feira, as coisas melhoraram bastante. As Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, pode ter seus defeitos, mas já é um marco do cinema brasileiro. O catálogo do festival anuncia que Araújo, diretor do documentário A Negação do Brasil, conseguiu reunir o maior elenco negro da história do cinema no País. Talvez não seja. O elenco de Quilombo, de Cacá Diegues, também reunia a fina-flor dos atores afro-brasileiros, mas lá eles interagiam, pela própria natureza do drama, com o elenco de atores (e atrizes) brancos. Em As Filhas do Vento, os atores são quase todos negros e o que interessa é essa análise de relações familiares no quadro de uma cidade - Lavras Novas, em Minas - que carrega a memória da escravidão.Para hoje à noite, estão previstas as exibições dos últimos filmes da competição - o uruguaio Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, que será distribuído no Brasil pela Imovision, e o nacional Vida de Menina, de Helena Solberg. Havia grande expectativa por ambos. O filme do Uruguai ganhou ótimas críticas no Festival de Cannes; o brasileiro era completamente inédito. Até então, nunca tinha sido exibido para o público. Os poucos que tiveram esse privilégio entusiasmaram-se, achando o filme delicado e sensível. Por meio do diário de Helena Morley, que tinha ascendência inglesa, a diretora de Carmem Miranda: Banana Is My Business conta a história da menina que também é a do Brasil, País engatinhando como nação, após a libertação dos escravos e a proclamação da República.DecepçõesDe maneira geral, a competição latina foi melhor do que a brasileira, mesmo que o filme do argentino Javier Torre, Vereda Tropical - sobre o exílio do escritor Manuel Puig no Rio - tenha sido um tanto decepcionante. Os outros dois latinos de língua espanhola - o cubano Suite Habana, de Fernando Pérez, e o uruguaio Whisky - foram bons e só o português O Fascínio, de José Fonseca e Costa, revelou-se desastroso. No lado brasileiro, as decepções foram maiores - Araguaya, A Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, e Procuradas, de José Frazão e Zeca Pires. Há uma grande curiosidade no ar. Todo mundo quer saber o que o júri integrado pelo crítico Rubens Ewald Filho, os diretores José Limongi Batista e Betse de Paula, e pela atriz Maria Lúcia Dahl, entre outros, vai premiar. É um caso raro em que as personalidades dos jurados suscitam mais expectativa do que os próprios filmes. Chegou-se a comentar, aqui, que Ewald Filho subiria ao palco esta noite, na premiação final, para dizer que os Kikitos ficariam acumulados para o ano que vem. Na quinta, após a exibição de As Filhas do Vento, a cara dele era de que começara a era dos ´kikitáveis´.As Filhas do Vento narra uma história de família. Começa numa igreja, onde se realiza missa de corpo presente para um homem. Abre-se a porta e entram três mulheres. A mais velha dirige-se para o caixão e ignora a mulher de sua idade, que avança para ela. São irmãs, separadas por um mal-entendido que logo será explicado. Uma ficou na cidade mineira com o pai. A outra foi tentar a carreira de atriz. Léa Garcia e Ruth de Souza são as atrizes. Cada uma tem uma filha, com a qual a mãe não consegue se comunicar, Danielle Ornellas e Maria Ceiça. Elas se comunicam mais com as tias.É uma história de amargura e ressentimento. Começa bem, tem um miolo um tanto problemático - com frases que revelam mais as opiniões do diretor do que das personagens - e termina bem. Joel Zito Araújo transformou-se, em pouco tempo, num dos mais importantes intelectuais afro-brasileiros. Seu livro A Negação do Brasil, que ele próprio transformou em filme, analisa a participação do negro no universo das telenovelas. O tema não deixa de estar presente no universo ficcional de As Filhas do Vento. A personagem de Ruth de Souza vira uma respeitada atriz de novelas (como ela realmente é). Por meio dela e da irmã - e das filhas - o diretor discute a condição da mulher negra. Falando sobre ela, discute o homem negro.Araújo foi grande em sua apresentação do filme. Disse que tentou criar um paradigma com seu elenco. Os atores não representam negros brasileiros. Representam brasileiros. Com todos os defeitos que possa ter, seu filme é lindo. Deve estar nos Kikitos, neste sábado à noite. Se Vereda Tropical pode ambicionar algum prêmio, é o de melhor ator para Fabio Aste. O Puig que ele cria é uma Greta Garbo do Irajá (e o filme começa no Irajá, mesmo atropelando a verossimilhança topográfica do Rio). Perseguido na Argentina por suas idéias esquerdistas e pelo homossexualismo assumido, Puig é uma louca atormentada pelo desejo e pelo medo da doença. Fala-se pouco sobre o escritor, propriamente dito. A ênfase está nos seus objetos de desejo. Vereda Tropical é um tanto over, como expressão desse imaginário gay. Mas o ator, dentro da linha de interpretação traçada pelo diretor, é excepcional.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.