PEDRO PINHO
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Vahid Jalilvand aborda temas contundentes em 'Sem Data, Sem Assinatura'

Diretor iraniano tem sido uma voz importante no cinema do Irã

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2018 | 06h00

Há um momento pungente em Sem Data, Sem Assinatura, longa do iraniano Vahid Jalilvand que estreou na quinta, 20. Um pai desesperado urra feito bicho pela perda do filho. O cinema tem dessas coisas. Fragmentos de realidade que confrontam o espectador com a própria humanidade. O filme, muito simples, torna-se sofisticado justamente porque prescinde de efeitos para tocar em temas profundos. Dilemas morais, responsabilidade. 

Um médico atropela moto que carrega uma família. Garoto fica ferido no pescoço. Ele se oferece para prestar socorro. Aparentemente, está tudo bem, mas no dia seguinte o menino morre. É muita coincidência, mas o laudo acusa envenenamento. A vítima ingeriu comida estragada. Só que o médico não se conforma – quer ter certeza de que o acidente não teve nada a ver com a morte. Passa a investigar. Suas ações provocam reações, as mais disparatadas. O simples torna-se complexo. Jalilvand, que também assina o roteiro, filma sem firulas. E se beneficia do elenco, sólido.

Você pode até achar que não tem muita importância – o carro. Vale pegar carona nos filmes de Jafar Panahi para abordar o tema. Panahi ganhou o Urso de Ouro em Berlim, em 2015, por Táxi Teerã. Ele próprio fazia um motorista de táxi e o filme conseguia colocar todos os problemas do Irã dentro do carro. Panahi continua confinado no Irã. Faz um cinema clandestino, em termos. Ele sofre restrições, certo, mas se o sistema quisesse calá-lo ele não estaria conseguindo filmar. Em Cannes, em maio, Panahi ganhou o prêmio de roteiro por 3 Visages, 3 Faces. De novo, um carro. Nele, uma famosa estrela iraniana, Benaz Jafari, assiste, no smartphone, a um vídeo em que uma garota ameaça se matar, porque a família a impede de ser atriz. Jafari cai na estrada em busca da vila em que mora a jovem. As 3 faces do títulos são de três mulheres cujas histórias se articulam.

Como se filma um carro em movimento? Como se filmam diálogos dentro de carros? Abbas Kiarostami já se havia colocado o problema em Dez, de 2002, que é anterior aos filmes de Panahi. E havia o carro de Gosto de Cereja, pelo qual Kiarostami ganhou sua Palma de Ouro – dividida com A Enguia, do japonês Shohei Imamura, em 1997. Filmar dentro do carro, conversar dentro do carro pressupõe certa liberdade, principalmente num país como o Irã, no qual há uma censura (religiosa, inclusive) muito rígida. Jafar Panahi foi confinado – banido da vida social – acusado de fazer propaganda contra o regime. Essa liberdade pode ser ficcional – dentro da própria ficção –, mas talvez seja isso que o cinema iraniano esteja querendo nos dizer. É preciso encontrar formas de driblar a censura. Antes, eram as crianças – os primeiros filmes de Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, etc., filtravam o mundo pelo olhar infantil, e dessa forma era possível abordar (com inocência?), temas delicados, senão proibidos.

O médico preocupa-se. O pai culpa-se. Vai atrás do sujeito que lhe teria vendido a carne estragada. Há uma espécie de superposição de dramas – do médico, do pai. No que esses dois homens podem se ajudar, completar? Transmissão de culpa, responsabilidade. Alfred Hitchcock fez grandes filmes de suspense transferindo culpas, e responsabilidades. A transferência, aqui, não diminui a dor. E também não existe a clássica ‘redenção’ do cinema de Hollywood. Em face da inevitabilidade da dor – da tragédia –, por maior que seja a revolta (o urro de bicho ferido do pai), não existe saída. Resignação, resiliência? É por aí que se encaminha o cinema de Jalilvand.

Nascido em março de 1976, quando Kiarostami já colocara o Irã no mapa do cinema mundial com seus primeiros filmes – Viajante, As Cores, Um Terno para o Casamento –, Vahid Jalilvand rapidamente se impôs como ator, dublador, roteirista e diretor de teatro e cinema. Veneza tem sido seu reduto e, com Quarta-feira, 9 de Maio, ele venceu o prêmio da crítica e a mostra Novos Horizontes do 72.º festival, em 2015. Com Sem Data, Sem Assinatura foi ainda mais longe, vencendo os prêmios de direção e de melhor ator, Navid Mohammadzadeh, também na mostra Orizzonti do 74.º festival, no ano passado. Jalilvand tem o gosto da provocação. Quarta-feira, 9 de Maio tem um ponto de partida que parece pertencer a algum velho filme neorrealista italiano.

Um anúncio de jornal oferece dinheiro a quem necessita e, nesse dia específico, extensas filas formam-se numa região de Teerã, tumultuando, num efeito cascata, toda a vida da capital iraniana. Mais que isso, o filme expõe temas-tabu na sociedade iraniana. A pobreza, a exclusão. Desde então, Jalilvand tem sido uma voz importante no cinema do Irã.

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