'Vagando no meio do Nada' lança olhar sobre a juventude vietnamita

Ao retratar a saga de uma garota disposta a abortar, a diretora Nguyên Hoàng Ðiêp revela o melhor do jovem cinema de seu país

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2014 | 03h00

 Melhor filme da Semana da Crítica do Festival de Veneza 2014, Vagando no Meio do Nada (hoje, às 19h, na ECA; domingo, às 21h, no Cinemark St. Cruz) é o melhor no novo cinema vietnamita. Distante das visões estereotipadas que o cinema americano transmitiu ao longo das décadas, o Vietnã retratado por seus jovens cineastas é pulsante, urbano e complexo. 

A jovem Nguyên Hoàng Ðiêp, que, aos 32 anos, já produziu documentários, curtas e longas (como Bi, Não Tenha Medo, de 2010), faz com Vagando sua estreia na direção de longas. E o faz com conhecimento de causa ao retratar a garota Huyen que, ao ficar grávida aos 17 anos, decide abortar, mas encontra diversos obstáculos, como a ausência de companheirismo de seu namorado, a falta de dinheiro e as dúvidas. 

Mais do que discutir questões morais, Ðiêp está interessada em falar ao mundo de um assunto que é, ao mesmo tempo, íntimo e global: a liberdade da mulher em um Vietnã que vaga entre o espartano modo de vida rural e a fervilhante vida urbana na capital Hanói. “É um filme sobre escolhas, e sobre o poder de bancar estas escolhas”, declara a diretora, que, para produzir seu filme, contou com fundos de incentivo da França, Alemanha e Noruega.

Mesmo que em uma narrativa muito particular e pessoal, que explora o universo interior dos personagens, Ðiêp atualiza a sociedade vietnamita que o cinema vê. 

Se, em 1993, O Cheiro de Papaya Verde (de Tran Anh Hung, que dá consultoria afetiva ao projeto de Ðiêp) mostrava ao mundo um Vietnã dos anos 1960 ainda às voltas com a guerra contra os americanos, Vagando faz um retrato da geração que herdou um país já em paz, em que a grande batalha seja talvez contra o niilismo. 

A jovem criada de uma tradicional família de Papaia Verde hoje seria uma garota que migrou do campo para a cidade para tentar cursar uma universidade e curtir a vida noturna de uma das mais interessantes cidades da Ásia. 

Assim como grandes metrópoles do mundo, a cidade abriga jovens que sonham em dar passos mais largos na vida, mas vagam a esmo. Em vez de arranjar um emprego, contar com os pais, Huyen se prostitui. Mas seu melhor – e único – cliente é obcecado por grávidas. E, ao mesmo tempo em que ele a afasta de seu plano de abortar, também a faz feliz. Diante do impasse, o que fazer? É este voo rasante da entrada na vida adulta que Ðiêp retrata com um olhar tão sensorial quanto analítico. 

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