Califórnia Filmes
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'Utoya - 22 de Julho' mostra o massacre da Noruega pelo ângulo das vítimas

Erik Poppe baseia-se no fotojornalismo para criar a estética urgente que marca sua reconstituição da tragédia na Noruega em 'Utoya – 22 de Julho'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2018 | 06h00

Em 22 de julho de 2011, um extremista armado atacou um acampamento de jovens na Noruega. Entre mortos e feridos, produziu um massacre. Mais cedo, naquele mesmo dia, ele bombardeara um prédio do governo em Oslo. Dali seguiu para a ilha de Utoya. Os fatos, indissociáveis, são reconstituídos por Erik Poppe em seu longa que estreia nesta quinta, 29.

Utoya – 22 de Julho integrou a programação da Mostra de Cinema de São Paulo. Poppe iniciou-se no fotojornalismo. Fotografou Ovos, de Bent Hammer, e dirigiu Troubled Water, ambos exibidos na 34.ª Mostra, em 2008. A experiência de jornalista transparece na estética de urgência que marca Utoya. O filme seleciona algumas personagens, em especial a garota que se perde da irmã mais nova e tenta reencontrá-la durante o assassinato em massa.

Poppe começa seu relato como um típico dia num acampamento. Os jovens flertam, brigam, planejam como será seu dia. E, de repente, ouvem-se tiros. Começa a correria. O clima vira de pânico. O partido de Poppe não é esclarecer, mas confundir. Por meio de planos fechados, que nunca descortinam o espaço, ele mostra os adolescentes caçados, acuados. Entregues à própria luta por sobrevivência, os jovens não entendem o que se passa. É um exercício militar? E, em caso contrário, por que ninguém vem socorrê-los?

Cai um jovem aqui, outro ali. A protagonista apoia uma garota que foi atingida e fala compulsivamente na mãe. Ela precisa avisá-la. E, à medida que vai morrendo, ela chora. Precisa dizer à mãe que a ama. Face à insegurança geral, avulta o pior da natureza humana. Alguém que busca abrigo atrás de uma rocha é enxotado, e é atingido em seguida. Os planos fechados podem ser uma alternativa de produção, para evitar uma grande reconstituição. Mas também cumprem uma importante função dramática. Expressam o medo, vulnerabilizam as pessoas.

Ao colocar o público na posição de vítima – como, o que, por quê? –, Erik Poppe não mostra nunca o caçador. Não é sua intenção responder às perguntas, nem elucidar os motivos do terrorista. Naquele dia fatídico, ninguém sabia quem era Anders Behring Breivik nem o que ele pretendia. Com o tempo, as vítimas foram contabilizadas – 77 pessoas mortas (69 jovens integrantes do Partido Trabalhista Norueguês em Utoya e 8 pedestres em Oslo). Breivik, de 32 anos, era um militante de extrema-direita. Empresário antiglobalista e nacionalista, tinha colocado mensagens na internet declarando-se inimigo da sociedade multicultural. Durante nove anos, desde os 23, ele planejara os ataques.

No final, o letreiro informa que os ataques foram o seu protesto contra a autoridade. De volta às personagens do drama, a garota e sua irmã – olha o spoiler –, Poppe vale-se de um movimento de câmera, uma imagem breve, para fechar seu relato. Sua ideia é mostrar o estado do mundo na era dos radicalismos. Como os jovens que morreram, é como se nós, os espectadores, também fôssemos presos numa armadilha, um trágico ‘hui clos’. 

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