"Urbania" é documentário e ficção

Flávio Frederico é um jovem diretor de São Paulo. Dirige dois veteranos - o ator e também diretor Adriano Stuart e Turíbio Ruiz - em Urbania. O filme que estréia nesta sexta-feira é muito interessante. Frederico trabalha no limite de duas linguagens, a do documentário e a da ficção. Assim como existe o road movie - e Vida Bandida é um exemplo dessa tendência -, existe o street movie. Urbania é um filme essencialmente urbano, sobre dois perdidos na cidade grande.Essa cidade é São Paulo e os personagens são um motorista e um cego. Rodam pelas ruas do centro num velho Dodge Dart. O cego é um velho que quer rever a cidade na qual foi feliz com a mulher, nos anos 70. Se ele é cego como quer (re)ver? Não é o menor dos mistérios de Urbania. No fim, Turíbio Ruiz, que interpreta o cego - Stuart é o motorista -, diz que não é mesmo que ele seja cego. "Apenas não quero ver."Adriano Stuart conversou com a reportagem no bar do Espaço Unibanco de Cinema, onde o filme de Flávio Frederico estréia neta sexta-feira. Espera que as pessoas vejam Urbania como é: "Um filme especial", define. Sabe que poderá ser difícil. "Já tive a experiência de ver o filme com grandes platéias nos festivais de Gramado ou Vitória; há sempre cinco, seis espectadores que procuram no final da exibição para dizer que acharam genial; a maioria fica indiferente."Mas não devia ser assim. Urbania é um projeto ousado na medida em que tenta romper a barreira entre documentário e ficção. No início, era para ser um documentário sobre a cidade. Evoluiu para outra coisa. Stuart conta que Frederico ia fazer um curta, depois um longa. Só que o que ele conseguiu captar, por meio das leis de incentivo, não dava para um longa. Dava, com certa folga, para um curta. Frederico e sua equipe assumiram o desafio: fazer um filme barato, que usasse o roteiro do curta para chegar ao longa. De que maneira? "Improvisando", diz Stuart.Muitas cenas são improvisadas, uma das melhores é a que se passa no Largo do Arouche. Justamente, o Arouche. Paulista do interior, Stuart mora há 50 anos no Sumaré. É do tempo em que a vida coletiva da cidade passava pelo centro: "Para ir à farmácia, ao médico, ao cinema, era preciso ir ao centro, o que a gente fazia pelo menos uma vez por semana." Desde então, os bairros de São Paulo adquiriram autonomia, vida própria. Stuart nunca mais foi ao centro. Voltou durante a filmagem de Urbania. Levou um choque: "A deterioração é terrível."Essa deterioração é o tema de Urbania, como é o tema dos filmes de Ugo Georgetti, de quem Stuart se transformou em ator fetiche, com participações em Festa, Sábado e Boleiros. Georgetti não tinha nenhum papel para ele no recém-concluído O Príncipe. Mesmo assim chamou-o para fazer uma ponta. "Ah, sou o seu amuleto?" E Stuart topou fazer o maître do restaurante, numa cena com Otávio Augusto e Eduardo Tornaghi.Nos últimos anos, Stuart tem trabalhado só como ator. Sabe que tem mais prestígio que sucesso. "Sou querido pela categoria e isso é o importante para mim." Fez mais de 20 filmes como diretor. Assinou grandes sucessos dos Trapalhões trafegou no cinema da Boca. Lembra-se de Kung Fu contra as Bonecas, nos quais os lutadores eram todos gays, e Bacalhau, um verdadeiro plágio escrachado do Tubarão de Steven Spielberg. "Rendeu um monte de dinheiro, os produtores ficaram ricos." Stuart dirigiu durante anos o programa dos Trapalhões na Globo. Filho, neto e sobrinho de palhaços, admite que a origem circense facilitou o trabalho com Renato Aragão e sua trupe. O humor é sua marca, está nos filmes que dirigiu e nos que atua, para Georgetti ou Frederico. Numa cena de Urbania ele canta o Hino Nacional para uma prostituta, num bar decadente. "É a essência do filme do Flávio, que contrapõe a decadência da cidade ao seu lado humano", resume.

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