IFC Films/Schramm Film
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'Undine', de Christian Petzold, é uma fábula para falar de relações e sentimentos

Filme é inspirado em figura mitológica, que assume forma de mulher e tem de achar um companheiro fiel

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão 

28 de dezembro de 2021 | 05h00

Meio divertido, Christian Petzold contou, na Berlinale do ano passado, como enganou seus atores, Paula Beer e Franz Rugowski. “Havia ficado encantado com a química dos dois em Em Trânsito e lhes disse que já tinha uma nova história para eles. Acrescentei que estava escrita e era um melodrama com elementos de mitologia grega. Morderam a isca e, a partir daí, só me restou escrever o filme.” No clima descontraído da coletiva, após a apresentação de Undine para a imprensa, a fábula dos bastidores somou-se à fábula na tela. O filme, em cartaz nos cinemas, terminou recompensado pelo júri: Paula Beer venceu o prêmio de melhor atriz. 

Na trama de Undine, ela trabalha como guia de visitantes no Berlin City Museum. É uma das áreas preferidas de Petzold na capital alemã. Foi-lhe apresentado por seu amigo cineasta Christoph Hochhäusler. “Com os elementos fantásticos cercando minha personagem central, achei que seria interessante colocá-la no ambiente do museu. Faria todo sentido que ela conhecesse a história da cidade, sendo quem é.”

Paula é uma sereia. Nutre-se do amor dos homens para permanecer sob a forma humana, mas tem um problema - o companheiro tem de ser fiel, ou ela o mata. Logo no início de Undine, ela não apenas está terminando uma relação como começa outra. A ruptura num café provoca uma onda de revolta de intensidade tão grande que o grande aquário ornamental voa pelos ares. No caos que se segue, há uma troca de olhares entre Paula e Rogowski. Algo nasce ali, naquele momento. Petzold: “Para mim, o cinema é um laboratório para falar sobre sentimentos”. Na trama de Undine, ela vive na Terra há mais de 300 anos. Busca o companheiro certo, fiel, e, nesse processo, vivencia a cidade e sua transformações. A arquitetura de Berlim também é personagem. 

Referências do passado

Embora já tenha feito filmes de época, como Bárbara e Phoenix, Petzold é atraído por histórias contemporâneas. “É muito estressante recriar o passado na tela. Tantos detalhes de objetos e figurinos. A chance de dar errado é imensa. O paradoxo é que viver numa cidade como Berlim nos confronta a toda hora com referências ao passado - aos crimes do nazismo e à divisão pelo muro.” É nesse mundo complexo que Petzold situa suas histórias que investigam o humano. Yella é sobre uma mulher que foge do passado representado pelo marido violento. Bárbara é sobre uma médica que, no passado, tentou fugir da parte Oriental da Alemanha. E Phoenix é sobre essa judia que ressurge das cinzas para se vingar do marido que, ao que tudo indica, a denunciou aos nazistas durante a 2.ª Guerra. 

Nada é simples no cinema de Petzold. Transit é sobre vidas em trânsito. O homem que assume a identidade de um escritor que morreu para tentar fugir da França, invadida pelos nazistas. A mulher do escritor, que ressurge e pode arruinar seu plano. Agora é o mito - Ondina, a sereia. “Li a história quando estava nos meus 20 anos. Quando pensei na história, não fiz nenhuma pesquisa. Tenho 61, usei apenas aquilo de que me lembrava e tentei preencher o restante com o meu conhecimento sobre as pessoas. Ninguém vira cineasta se não estiver interessado no comportamento alheio. Quando digo que o cinema é um laboratório para investigar os sentimentos estou pensando nas pessoas, naquilo que são capazes de fazer, para o bem e para o mal.” 

Dimensão mágica

Mais para o fim do filme, as cenas subaquáticas - Rogowski é mergulhador - possuem uma dimensão mágica, irreal. “Sempre quis filmar debaixo d’água. É uma coisa que me fascina, e ao mesmo tempo me aterroriza. Não consigo ficar muito tempo submerso. Os movimentos na água ficam fluidos, elegantes. É realmente muito bonito”, define Petzold. 

As mulheres, principalmente, nos filmes de Petzold, estão sempre escondendo alguma coisa - quem realmente são. Ele reflete - “Mudanças de identidade são um tema clássico no cinema. As pessoas muitas vezes querem mudar. Saem por aquela porta convencidas de que vão deixar tudo para trás e construir novas vidas. Eu não creio muito nisso. Debaixo da pele, as pessoas continuam as mesmas. Carregam seus dramas, seus pecados. Esse é o material que me interessa.”

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