EFE
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Unanimidade que vem do Chile

Gloria rompe o clima de descrença na humanidade que domina Berlim

Luiz Carlos Merten,

11 Fevereiro 2013 | 12h37

 E a luz do tom – as águas de marco – inundaram o inverno berlinense por obra e graça do chileno Sebastian Lelio, que apresentou a primeira unanimidade do festival. Ao contrário do que diz Nelson Rodrigues, nem toda unanimidade é burra e o filme dele – Gloria –, além de ser um energético numa Berlinale que tem se pautado pela descrença no humano e no social, é também belíssimo como cinema. Ainda é cedo para fazer esse tipo de prognóstico, mas vai ser preciso surgir outra atriz realmente fora de série para tirar de Paulina Garcia o prêmio de interpretação que ela merece.

O titulo evoca um cult do diretor John Cassavetes (com Gena Rowlands), que Sidney Lumet, em má hora, achou que podia refilmar (com Sharon Stone). Se existe alguma semelhança, a Gloria de Sebastian Lelio é da geração pinball. Ela começa o filme dançando numa balada de coroas, atravessa todo tipo de experiências afetivas e familiares, e termina dançando de novo. No intervalo, se envolve com um coroa, divorciado como ela, mas ele ainda permanece atado à família, à mulher e às filhas, como um peso. O filme aborda solidão e sexo na idade madura com franqueza. A história de Gloria não é apenas a de um destino individual. Vários toques deixam claro que Lelio está contando uma história – a sua versão – do Chile.

Numa cena, jantando com amigos, Gloria ouve do anfitrião que o Chile, hoje, pode ser muito bem uma ideia plantada do exterior – referência à globalização e aos experimentos econômicos de Milton Friedman que foram a base do boom chileno, sob o malfadado Pinochet. Bye-bye, gracias a la vida – a propósito, o produtor é Pablo Larrain, que contou a história de Violeta Parra. Lelio diz que a inspiração do seu filme veio da própria vida, a poesia cotidiana, do riso e da tristeza, daí a homenagem a Tom Jobim, por meio de Águas de Marco.

Gloria passou ontem de manhã para a imprensa – a gala seria à noite. No sábado, a manhã também havia sido gloriosa, com dois filmes em que a paisagem, convertida em personagem, já havia transformado a geografia da Berlinale. O russo Boris Khlebnikov explicou como achou que seria interessante transpor uma situação de western para a Rússia contemporânea e fez A Long and Happy Life. Ao contrário do título, a vida de seu protagonista é curta e brutal. Ele embarca num projeto coletivo de uso da terra, que se choca com a especulação do capital (os bancos). Desertado por todos, vira um herói solitário e trágico. E tudo se passa numa comunidade de casas de madeira na beira do rio. As águas ficam passando, como a vida. O júri, leia-se Wong Kar-wai, nem é louco de ignorar a força do filme de Khlebnikov, que tem a urgência social de Sergei Loznitsa, ou seja, o melhor da Federação Russa, atualmente.

O alemão Thomas Arslan radicalizou a intenção do colega russo e viajou ao Novo Mundo, no fim do século 19. Não propriamente um western, mas uma paisagem – o Klondike, o Yukon – associada ao ciclo do ouro no Velho Oeste (mesmo que se situe na fronteira canadense). Um grupo de alemães inicia sua jornada em busca do ouro. O coletivo desintegra-se, menos pela ambição, embora ela também desempenhe seu papel, e mais pela ação da natureza inóspita e selvagem. Nunca se viu grupo mais desafortunado. Dos sete iniciais, sobram dois, ocorre um duelo – como nos westerns – e, no final, apenas um está reiniciando a jornada. Nina Hoss, a Barbara do filme em cartaz em São Paulo, é muito boa – e seria um prêmio a considerar de interpretação, se não houvesse a chilena. Berlim costuma atribuir um premio técnico à melhor fotografia. Vai ser duro escolher entre A Long and Happy Life e Gold.

Para fechar, a pornografia tem andado solta por aqui. Lovelace biografa a estrela de Garganta Profunda, a lendária Linda Lovelace, no formato TV movie. Tudo é edulcorado e a pobre Amanda Seyfried, que faz o papel, é uma vítima dos homens, ou de um homem, o marido canalha. Michael Winterbottom não cai nessa. The Look of Life biografa o inglês Paul Raymond, que evoluiu de rei do porn a milionário das comunicações. A narrativa concentra-se no fim da vida de Raymond. Ele pode ter adquirido fortuna transformando mulheres em objetos de sexo, mas na época retratada, a mulher, a filha e a amante são duras na queda. No universo pornô, só as “tough ladies” se impõem.

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