Uma viagem na vida (e memórias) de Marcel Ophuls

O diretor fala de sua produção ‘Viajante’, um dos destaques Festival de Cinema Judaico que começa nesta terça-feira, 5

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2014 | 02h00

Ele conta, em Un Voyageur – Um Viajante, seu último encontro com o amigo François Truffaut. Marcel Ophuls se lembra. Truffaut, já terminal, despediu-se dele com um pedido – “Prometa-me que vai escrever sua autobiografia.” Passaram-se quase 30 anos – Truffaut morreu em outubro de 1984 –, mas Marcel Ophuls cumpriu, enfim, a promessa. Ou, como ele declarou no Festival de Cannes do ano passado, em que Un Voyageur integrou a seção Quinzena dos Realizadores, o mais próximo que conseguiu chegar da autobiografia foi neste belo filme que será uma das pérolas do 18.º Festival de Cinema Judaico, que começa nesta terça-feira, 5.

O momento é delicado, com um atrito nas relações entre Brasil e Israel, mas o Festival de Cinema Judaico vai além disso. Nesses 18 anos, o festival tem mostrado a produção audiovisual de Israel, mas há um cinema judaico que se faz através do mundo. As próprias histórias da Shoah, que já parecem mapeadas, esgotadas, não cessam de surpreender. Há sempre um dado novo, um depoimento novo para tentar iluminar, no nosso imaginário, como aquele horror foi possível. Nessa via, Um Viajante vem se inscrever de uma maneira muito especial. 

Ao público da Quinzena, Marcel fez uma declaração curiosa – disse que o tema do filme é a sua ‘boca que não para de falar’ e era importante manter o foco para que não fosse devorado pelas próprias palavras. O viajante é ele – na vida, no cinema. Marcel Ophuls faz justiça a todos os que o ajudaram, amaram, sustentaram na sua trajetória. O pai, Max Ophuls, bien sur, mas também Jeanne Moreau, Stanley Kubrick, Woody Allen, Marlene Dietrich. E Truffaut. Marcel Ophuls tornou-se uma referência, um marco do documentário. Fez filmes seminais sobre o genocídio judeu. Ergueu o dedo acusador para denunciar o colaboracionismo. Como Shoah, de Claude Lanzmann, Le Chagrin et la Pitié e Hotel Terminus, sobre o sinistro Klaus Barbie, são obras completas. Grandes experiências estéticas, políticas – e humanas.

Marcel Ophuls não faz outra coisa senão tentar decifrar o mundo em seu cinema, mas para isso ele precisa se decifrar. Um viajante. Na breve entrevista que se seguiu à apresentação de seu filme no Palais Croisette, sede da Quinzena – Hotel Terminus tinha passado em Un Certain Regard, em 1988 –, Marcel confessou seu sofrimento diante da página branca. Ele até tentou escrever um livro, mas terminou percebendo que seria melhor (mais fácil?) fazer um filme. Mas não um documentário convencional. Conta histórias – anedotas? O título em inglês é Ain’t Misbehavin, algo como ‘não estou me comportando mal’. Lembra os conselhos que recebeu de Bert(old) Brecht e de um almoço com ‘tio’ Otto (Preminger) em Nova York. Falaram do tesão do grande diretor pela stripper Gypsy Rose Lee (com quem teve um filho) e nada de filmes. 

Marcel, às vezes, se pergunta sobre a sinceridade dos elogios dos críticos à sua obra. “Não será por que sou filho do grande Max Ophuls?” E será sempre grato a Woody Allen, por haver incluindo Le Chagrin et la Pitié – The Sorrow and the Pity – em Annie Hall/Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, contribuindo para a popularidade do filme na ‘América’. Ele não resiste, no filme, em ler a carta que Allen lhe enviou, dizendo que Le Chagrin é ‘uma grande obra de arte’. O velhinho (está com 86 anos) pode estar ficando autoindulgente, mas certamente não é gagá. E se suas ficções iniciais eram medíocres – o episódio de O Amor aos 20 Anos –, Truffaut estava certo em encorajá-lo. Os documentários da grande fase são mesmo obras de arte. Marcel Ophuls só precisava encontrar sua forma de expressão.

Um mundo de boas promessas

Desta terça, 5, ao dia 10, e em cinco espaços da cidade – duas salas da Hebraica, Cinesesc, Pátio Higienópolis e Centro de Cultura Judaica –, o 18.º Festival de Cinema Judaico deve exibir mais de 30 títulos, entre documentários e ficções. A novidade é uma seleção de obras musicais – Com Um Toque de Música –, que vai mostrar desde um clássico restaurado – Mamele – até obras mais recentes, como o documentário Amy Winehouse – O Dia em Que Ela Veio a Dingle. Mamele resgata a grande arte de um ícone ídiche, a cantora Molly Picon, muito popular nos anos 1930. Amy narra suas origens e evoca o começo da carreira na série de TV sobre música irlandesa.

Você não tem ouvido falar muito de Agnieszka Holland. Ex-assistente de Andrzej Wajda e protegida de Francis Ford Coppola, ela conta em Na Escuridão a história de um grupo de judeus que se esconde nos esgotos de Varsóvia. Coincidência, ou não, a história tem tudo a ver com Kanal, o primeiro Wajda, que lançou a nova onda polonesa em 1957. Outras ficções que prometem são Adeus Bagdá, baseado no best seller de Eli Amir, sobre a história da comunidade judaica iraquiana, a mais antiga do mundo; O Cardeal Judeu, que conta a história (real) de Jean-Marie Lustiger, judeu convertido ao catolicismo que se tornou conselheiro do Papa João Paulo II; e Tudo Acontece em Nova York, sobre as atribulações de um casal que acolhe uma jovem em casa e a estabilidade da dupla nunca mais será a mesma. O filme é realizado pelo casal de cineastas franceses Rubem Amar e Lola Bessis, cuja vinda a São Paulo, antes certa, acaba de ser cancelada.

Além dos documentários de Marcel Ophuls (leia acima) e sobre Amy Winehouse, existem outras boas promessas do gênero, incluindo um do Brasil – Outro Sertão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, sobre o período em que Guimarães Rosa, vice-cônsul em Hamburgo, ajudou judeus a abandonarem a Alemanha de Hitler. Outros títulos – Os Verdadeiros Bastardos Inglórios, que remete ao filme de Quentin Tarantino; e Em Nenhum Lugar da Terra, sobre cinco famílias que se esconderam numa caverna, na Ucrânia para fugir dos nazistas. / L.C.M.

FESTIVAL DE CINEMA JUDAICO 

Teatro Anne Frank e Arthur Rubinstein ; Centro da Cultura Judaica; CineSesc; Cinemark Higienópolis. R$ 10.Até 10/8. 

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