Uma velha (e densa) história de ódio, morte e vingança

Em 1924, já famoso como diretor na Alemanha - havia realizado as duas partes de Mabuse e de Os Nibelungos -, Fritz Lang embarcou para os EUA para analisar os métodos de produção dos norte-americanos. Ele se teria tornado um diretor 'americano', mais cedo ou msais tarde. A pressão de Goebbels para que tornasse o cineasta oficiasl do 3.º Reich, talvez somewnte tenha preciopitado as coisas. Do convés do navio, olhanmdo a silhuetas de Nova York, Lang disse que teve a ideia para Metropolis. Viajava com sua mulher e roteirista, Thea Von Harbou, que escreveu todos os seus filmes até 1932. Quiando ele, fugindo do nazismo, viajou primeioro paras a França e, depois, para os EUA, Thea, que abraçara o nacional-socialismo, preferiu ficar.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2014 | 02h00

Começa hoje no CCBB a grande retrospectiva de Fritz Lang, que vai trazer toda a obra do grande diretor, inclçusoive sua participaçãso, como ator, em O Desprezo, de Jean-Luc Godard. Lang faz um diretor que tenta realizar uma versão da Odisseia e Godard, com base no romance de Alberto Moravia, reflete sobre a morte do épico no mundo contemporâneo. Na fábula homérica, Ulisses pérde-se no mundo, após a guerra, e Penélope o espera. Na realidade, a mulher moderna não espera mais seu homem porque ele também não é mais Ulisses. O mundo se apequenou. Lang faz seu filme com estátuas. Godard realiza em torno dele, e de Brigitte Bardot, seus travellings mais suntuosos. O da abertura do filme, em Cinecittà, é uma loucura. O maior Godard? O mais clássico, com certeza.

Todo Lang! Ele nasceu em Viena, em 5 de dezembro de 1890. Morreu em LosAngeles, em 2 de agosto de 1976, às vésperas de completar 86 anos. Filho de arquiteto, ia sewguir a carreira do pai - daí, pode ser, Metrópolis -, mas abandonou o curso para estudar arte na Academia de Artes Gráficas de Viena, depois, Muinique. Em 1910, dá a volta ao mundfo, visita o Oriente. E ganha a vida como pintor. Instala-se em Paris, em 1913, mas no ano seguinte volta a Viena, por causa da guerra. Ferido, sofreu uma longa convalescença, durante a qual suas habilidades gráficas o aproximam do cinema.Torna-se roteirista para o diretor Joe May. A partir daí, o cinema fará sempre para de sua vida. Conta a lenda que foi ele que preparou e deveria realizar para o produtor Erich Pommer o filme que virou marco do movimento expressionista - O Gabinete do Doutor Caligari.

Robert Wiene substituiu-o e ficou com a glória, mas o Lang inicial é um diretor expressionista que cria pesadelos sombrios e revisita as lendas.

A Morte de Sigfried e Metropolis encantam a cúpula nazista, mas Lang, ao realizar o segundo, já se distanciara da mulher e roteirista. Ele declarou, anos mais tarde, que não acreditava no conceito de Thea - o amor com a forçsa de resolver os conflitos entre o capital e o trabalho. "Era falso." A decisão de abandonar a Alemanha já vinha sendo amadurecida, mas ele ainda lançou a bomba de M, o Vampiro de Dusseldorf, em 1931. O submundo tenta localizar assassino de meninas que virou alvo de uma caçada da polícia e está prejudicando as atividades criminosas. Lang acusa toda a sociedade alemã de seu tempo, que abraçava o nazismo. E ganha a Américaz, via Paris, onde asssinou Liliom.

Num livro seminal - Fritz Lang na América -, o crítico e (na época) futuro cineasta Peter Bogdanovich observa que, embora a fase norte-americana do diretor some mais da metade de sua obra, os analistas sempre minimizaram a importância da passagem do mestre expressionista por Hollywood, preferindo destacar os filmes da primeira fase alemã e até os do retorno à Alemanha, por volta de 1960. Com aplicação - e acurado poder de observação -, Bogdanovich propõe um outro olhar sobre a experiência de Lang em Hollywood. O Lang 'americano' é coerente com os temas e o estilo da fase alemã, e pode-se mesmo dizer que foi no cinema de ação que ele encontrou o veículo perfeito para seus pesadelos filom,ados, em que os homens se batem contra o destino e, invariavelmente, perdem. A Morte, o supercriminoso Mabuse, Sigfried e M são confrontados com o mito. Na América, Lang abandona os nibelungos e abraça personagens de homens comuns.

O primeiro filme norte-americano, Fúria, de 1936, trata de linchamento - como M, o Vampiro de Dusseldorf, que não deixa de ser, também, outro linchamento. M termina com Peter Lorre, que faz o assassino, acuado e lançando aquele grito - 'Alguém me ajude!' - que é um dos mais desesperados captados por uma câmera de filmar. A cena é sufocante - teto baixo, claro/escuro rigoroso, a massa de criminosos da qual saem, anonimamente, palavras de ordem que antecipam a carnificina que o nazismo iria promover, a seguir.

A angústia humana, o desespero, a brutalidade do choque com o mundo são os temas de Lang. Dos nibelungos aos mocinhos de faroeste e a seus gângsteres, o autor parece não filmar senão para justificar os versos da canção Chuck-a-Luck de seu western Rancho Notorious, O Diabo Feito Mulher, com Marlene Dietrich, de 1952. Caçando o assassino da mulher, Arthur Kennedy vai parar no covil da perigosa Marlene. "E ouçam a roda do Destino/Que roda e roda sussurrando/a velha história de ódio, morte e vingança." No começo de sua carreira, casado com Thea Von Harbou, Lang flertou com a ficção científica em A Mulher na Lua e Metrópolis. E nunca deixou de cuiltivar as histórias do gênio criminoso Mabuse, que atravessa décadas de sua obra. Por meio de Mabuse, Lang não deixa de lançar uma luz para que se compreenda como Adolf Hitler e seus asseclas conseguiram se apossar daquele jeito do imaginário do povo alemão. Em Hollywood, diversificou-se e fez filmes de vários (todos?) os gêneros. O maior Lang é alemão - M. Mas a sucessão de obras-primas na América impressiona, mesmo que muitos desses filmes só tenham sido reconhecidos mais tarde como tal, inclusive pelo esforço de Bogdanovich - O Diabo Feito Mulher, Um Retrato de Mulher, Suplício de Uma Alma, Os Corruptos.

Na 'América', Fritz Lang torna-se progressivamente mais austero, como se as histórias e os personagens ocupassem todo o seu foco, sem tempo para firulas visuais. E ele se torna, também, cada vez mais pessimista. A lei, a Justiça, os instrumentos sociais criados pelos homens são falsos, injustos, derrisórios, mas isso, afinal, é reflexo do conceito original - o homem, para Lang, é culpado. O policial de Os Corruptos se comporta como um assassino. O falso culpado de Suplício de Uma Alma é, na verdade, um criminoso. O embate dos homens com seu destino só pode ser um evento trágico. Essa austeridade de filmar vai virar um conceito adotado pela nouvelle vague, e referido no filme de Godard - 'O travelling é, acima de tudo, uma questão de moral.' Mas nem todo Lang é um pessimista atroz. Salva-o, com sua graça, o romantismo de obras como House by the River/Maldição, talvez o mais subestimado de seus grandes filmes, O Diabo Feito Mulher e sua extraordinária aventura infantojuvenil, O Tesouro do Barba-Rubra, Moonfleet, no qual a corrupção do mundo é desvendada pelos olhos de um garoto.

São filmes feitos com regularidade, a cada dois anos - 1950, 52, 54. Entre eles, Lang fez outros, mas a questão é que algo talvez estivesse se passando com ele, neste momento quando um homem, aos 60 anos, toma consciência do próprio envelhecimento. Lang é um dos caolhos de Hollywood - os demais, John Ford, Raoul Walsh e Andre De Toth. Todos, e mais outros 'velhos', como Allan Dwan e Howard Hawks, filmam aventuras que são como testamentos. O Tesouro não é só uma aventura de pirataria nos antípodas da série Piratas do Caribe, com Johnny Depp. É um monumento à glória de Lang - pela sabedoria de contar uma história -, principalmente se você pensar, depois que vir o filme, que os personagens de Stewart Granger, George Sanders e Joan Greenwood não existiam no romance de John Meade Falkner em que ele se baseou. De volta à Alemanha, já septuagenário, o velho mestre colocou o expressionismo nos porões do suntuoso O Tigre da Índia, em que Debra Paget tem aquela cena de dança, e denunciou, via TV, Os Mil Olhos do Dr. Mabuse. Sua obra oferece uma portentosa lição de cinema, de ética e de vida.

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