Uma trajetória curta, mas marcante

A visão de conjunto da obra dePerson permite dois tipos de observação - não necessariamenteexcludentes. Você pode prestar atenção na diversidade de estilose temáticas e/ou concentrar-se nos dois títulos principais -São Paulo S.A. e o O Caso dos Irmãos Naves - e nestecaso contentar-se com a qualidade de ambos. A obra, pequena,encerrada por uma morte prematura, não permite muitaespeculação. Para onde teria ido Person se não tivesse morridonum acidente de carro, em 1976, com apenas 40 anos?Impossível responder, mas a pergunta vale. Teriaaprofundado a análise da violência política e da alienação,presentes nos seus filmes principais, ou explorado mais a veiacômica de Marido Barra Limpa ou Cassy Jones, o MagníficoSedutor? O primeiro é renegado por Person e reaparece agora,depois de 30 anos ausente da tela; o segundo tem sidoconsiderado um passo fraco na trajetória de um artista forte.São figuras excêntricas no interior de uma obra sólida ou, pelocontrário, ajudam a compreender o conjunto de uma obraproblemática? São perguntas que ficam para ser respondidasdepois de encerrada essa oportuna reavaliação.E tanto mais oportuna quando mesmo os títulosconsagrados de Person andam esquecidos. No entanto, os problemas, e a linguagem usada para tratá-los, não envelheceram. Certo,por comparação com o que existe hoje, podemos achar amena acidade retratada naquele início dos anos 60 - a produção deSão Paulo S.A. é de 1964. A cidade já era nervosa, caótica,impiedosa, embora estivesse longe de se transformar na babilôniamonstruosa em que se vive agora. Mas era um início de processo,muito bem flagrado por Person.O título em si já mostra a criativa ambigüidade com queo tema será tratado. Fala de uma cidade concebida como empresa eportanto voltada para a produtividade e não para o bem-estar. Efala, ao mesmo tempo, do anonimato em que caem os habitantes dasociedade industrial. A época é a da instalação acelerada daindústria automobilística, entre o fim dos anos 50 e começo dos60. Walmor Chagas faz o herói problemático dessa saga tantointimista quanto política, e Otelo Zeloni é seu complemento eseu contrário, o homem sem escrúpulos de consciência, que vem aomundo para vencer a qualquer custo.A temática não impressiona tanto quanto o rigor de suaexposição. Aí sim, e não apenas na escolha dos assuntosadequados, se vê a mão e o cérebro de um grande cineasta. SãoPaulo S.A. talvez seja, ao lado de Os Cafajestes, de RuyGuerra, o filme brasileiro mais influenciado pela nouvellevague. Esse diálogo entra na composição cool dos personagens, naangulação elegante e na livre mobilidade da câmera, nasarritmias internas, na fragmentação do tempo da narrativa - querdizer, na maneira não-linear de contar essa história de um rapazque deseja apenas se dar bem na vida mas acaba perdendo a alma.Trata-se de um belíssimo filme, pensado e concebido na agonia deum período democrático.O Caso dos Irmãos Naves é de 1967. O País já vive emregime de exceção e prepara-se para mergulhar na longa noite doAI-5. É nesse ambiente que faz sentido a rememoração de um errojudiciário acontecido em Araguari, MG, durante a ditaduraVargas. Ao contrário da sofisticação de São Paulo S.A., Personprefere agora a narrativa despojada para expor a arbitrariedadepolicial e as torturas infligidas a presos pobres que não têmcomo se defender. As cenas, exemplares, às vezes duras desuportar, parecem pedir algum comentário sobre os problemaséticos implicados quando se retrata a violência na tela. Nãoparece atual?

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