Uma Thurman, uma deusa em ação no cinema

Seu nome vem da mitologia hinduísta. Uma quer dizer luz e beleza. Uma Thurman conversa pelo telefone com a reportagem do Estado. É uma teleconferência. Estão com ela, simultaneamente, na linha, jornalistas de dez países. Há só uma regra - qualquer pergunta sobre o traumático divórcio de Uma e a linha será cortada. Ela pegou o ex-marido Ethan Hawke no pulo com uma modelo. Rolou baixaria e até ameaça de morte. Uma Thurman pode ser vista nas telas da cidade em O Pagamento, o novo thriller de John Woo, com Ben Affleck. Mas o motivo da entrevista é um filme que ainda está a caminho. Kill Bill chega só no dia 23 de abril aos cinemas brasileiros. Quando isso ocorrer, a segunda parte de Kill Bill - o filme divide-se em dois, de duração normal - estará estreando nos EUA. "Foi um filme que demoramos quase dez anos para fazer", explica Uma. O ´nós´ engloba o diretor e roteirista Quentin Tarantino. Kill Bill começou a nascer durante a rodagem de Tempo de Violência (Pulp Fiction). O próprio Tarantino conta que saía com o elenco para descontrair, após as filmagens. Numa dessas, preparando-se para ir ao encontro de Uma e de John (Travolta), um flash cruzou sua mente e ele viu uma mulher de sabre, em posição de combate. Achou que daria filme - e um filme cheio de referências, misturando tudo aquilo de que gosta. Spaghetti westerns de Sergio Leone, filmes de ação de John Woo, os clássicos de artes marciais dos lendários Shaw Shaw Brothers (de Hong Kong), aventuras de samurai. Uma admite que não é especialista nesse tipo de cinema. "Quentin é que conhece tudo. Pode ser algo só para o prazer dele, mas quase tudo em Kill Bill é referencial. Gestos, cenas, músicas, tudo se refere aos filmes que fizeram a cabeça dele. A trilha foi muito elaborada. Pouca gente vai notar, porque eu duvido que alguém tenha essa cultura cinematográfica, mas talvez alguns percebam alguma coisa e outros outras coisas. Quentin me mostrou vários filmes que o inspiraram e o que posso dizer é que hoje tenho grande respeito por esse cinema de ação que segue outras regras que não as de Hollywood", diz a atriz. Tarantino fez Kill Bill para Uma. Quando ia começar a filmar, por volta de 2000, Uma ficou grávida. Ele esperou que Uma tivesse o filho - Roan -, que passasse um ano inteiro com o bebê, que voltasse à forma física. Foi uma longa espera, mas Tarantino nunca imaginou fazer Kill Bill com outra atriz. Do alto de seu 1,83 metro, Uma, empunhando a espada, é tudo o que o diretor queria para construir a sua saga de vingança. Pois Kill Bill narra uma história de vingança. Tarantino teve a visão dessa mulher abandonada para morrer, depois de ter sido duramente golpeada. Ela volta à vida para se vingar - ponto de partida de 99% dos spaghetti westerns. Uma teve a idéia de que a mulher deveria estar vestida de branco, pois estaria se casando, e ganhou crédito de roteirista por isso. Para Uma, foi, de longe, o filme que mais exigiu dela, fisicamente. Ele teve de se submeter a treinamento pesado com o lendário Wo-Ping, o mestre número um na coreografia de cenas de ação de artes marciais. "Treinei como se estivesse me preparando para uma Olimpíada. Foram dois estilos de sabre - de samurai e wushu. Este último predomina nos combates na Casa das Folhas Azuis; o de samurais é quando enfrento Lucy Liu, no combate final da primeira parte de Kill Bill. Também treinei duas formas de kung fu, a garça e o tigre. E treinei o arremesso de facas." Na história, Uma integra um grupo de matadores. Quando cai fora para se casar, é atacada na igreja. Ela adorou filmar com John Woo, depois de Tarantino. "John tem um estilo visceral e poético. E o herói do filme dele é Ben (Affleck). Foi bom voltar a ser uma mulher comum." Sobre a relação com Tarantino, Uma diz: "Quentin me adora e eu também o adoro, mas tenho a impressão de que ele é sádico comigo. Depois de Tempo de Violência e Kill Bill, estou segura de que o divertimento íntimo dele é imaginar formas de violência para me machucar nos filmes."

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