Uma teia sexual em "Triunfo do Amor"

Clare Peploe é mulher de BernardoBertolucci. Escreveu para ele (e com ele) o roteiro deAssédio, que talvez seja o melhor filme da fase recente dodiretor italiano - por mais que se possa gostar de BelezaRoubada. Clare nega qualquer influência de Bertolucci sobreTriunfo do Amor, seu filme que estréia nesta sexta. Emcontrapartida, conta rindo, numa entrevista por telefone, deLondres, que se houve influência da parte de alguém foi dela."Bernardo usou o meu diretor de fotografia (Fabio Cianchetti) erodou seu novo filme, The Dreamers, parcialmente nos mesmoscenários do meu." E que cenários: a Villa Reale, uma daslocações, fica na Toscana e pertenceu à irmã de Napoleão. Triunfo do Amor pode ser resumido, rapidamente, comouma história ´clássica´ de travesti. Mira Sorvino faz a princesaLeronide, que um dia vê o rosto da beleza e ele pertence aojovem Agis, interpretado por Jay Rodan. Só que ele foi educadopelo sábio Hermógenes (Ben Kingsley) para odiá-la - ela seria arepresentação do autoritarismo, ainda mais que usurpou o tronoque a ele pertenceria. Mira veste-se de homem para aproximar-sedo rapaz, com o nome de Phocion. Provoca perturbação nele.Provoca desejo na irmã do filósofo, Leontine (Fiona Shaw). O filme já foi definido como "uma sedutora bobagem".Baseia-se numa peça de Pierre Marivaux, autor francês do século18 que escreveu sobre sexo, desejo e sobre as diferenças entrehomens e mulheres - muito antes que o assunto virasse moda com oadvento do feminismo. Clare confessa que não conhecia o texto.Um amigo participava de uma montagem da peça, em Londres. Viviatentando cooptá-la para assistir ao espetáculo. "Fui ver só noúltimo dia e me encantei com a sutileza do texto, com a riquezada encenação." Como não podia mais recomendar a peça aos amigos começou a sentir vontade de verter Triunfo do Amor para ocinema, para atingir um grande público. "Sou roteirista, diretora, mas filmar não é minhaprioridade, nunca foi", ela conta. "Prefiro viajar, porexemplo, e confesso que só filmo se o assunto realmente tomaconta de mim e passa a ser uma necessidade." Foi o que ocorreucom Triunfo do Amor. Atraiu-a o que os críticos, há 300 anos chamam de ´maurivaudage´, a incrível habilidade de Marivaux dejogar com a linguagem, criando preciosismos verbais. "Suaelegância é inigualável e eu digo isso com certa inveja porque,afinal de contas, também sou escritora." Ela admite que oconceito que presidiu a realização veio do espetáculo teatral.Triunfo do Amor é um filme sobre emoções que transformampessoas. E é um filme sobre a linguagem e o próprio cinema. Sãovários os planos, os momentos, as situações que ´desconstróem´ ofilme para mostrá-lo como um processo ao qual somos admitidoscomo espectadores privilegiados. Nessa vontade de revelar o cenário, de mostrar o públicoque assiste à representação da peça dentro do filme, não estariaembutida uma vontade, à François Truffaut, de desconfiar doromantismo? "François é uma referência para todos nós quetrabalhamos com emoções, com afetos; não podemos ser puramenteromânticos." O repórter observa que o amor, nos filmes deTruffaut, é vivido como oposição entre o gesto impulsivo e apalavra consciente. "É isso", concorda Clare. E elaacrescenta: "Temos de desconfiar do amor porque, com freqüência ele nos transforma em tolos." É o que ocorre com Hermógenes e a irmã, Leontine. É apersonagem que mais atrai a diretora. "Fiona (Shaw) é umagrande atriz e eu sempre quis lhe oferecer um papel à altura deseu talento." Em contrapartida, não queria Mira Sorvino."Preferia uma atriz desconhecida, mas os produtores insistirame ela foi tão encantadora que me convenceu." Diz que é um filmeem que o amor substitui a guerra. Acrescenta, maliciosa, quedeveria ser visto por George W. Bush. "Lembre-se de Clinton;ele estava sempre tão preocupado em liberar a libido que nãotinha tempo de pensar em guerra; Bush, pelo contrário, é otípico reprimido, que substitui o pênis pelas armas, numainterpretação psicanalítica clássica. "Se ele fizesse mais amor"- na verdade, ela usa uma palavra mais forte - "não estaríamosassim, à beira da guerra."O Triunfo do Amor (The Triumph of Love) - Comédia.Direção de Clare Peploe. Ing-It/2001.Duração: 112 minutos.Livre

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