"Uma Questão de Família" dilui Shakespeare

Na origem de Rei Lear, deWilliam Shakespeare, sempre houve uma questão de família. Ovelho rei divide seu reino entre as três filhas, elas (menos acaçula) se voltam contra ele. Não admira, portanto, que MyKingdom, o Rei Lear, de Don Boyd, tenha recebido no Brasilo título de Uma Questão de Família. O filme estréia nesta sexta-feira na cidade. Pode não ser muito bom, e na verdade não é, masé uma interessante tentativa de transpor a peça famosa para aépoca atual. Oferece a Richard Harris um papel forte, que o ator, tantas vezes acusado de exagero, trabalha num registro maiscontido, quase minimalista. Quase não há gritos em Uma Questãode Família e, quando eles se mostram necessários para aintensificação do drama - o desespero de Lear diante da morte doFool, que aqui não é o palhaço tradicional -, o diretor suprimeo som, superpondo a música, suave e triste, ao que deve ser ogrito dilacerado do personagem. Lear é um dos grandes personagens do teatro e daliteratura, uma das supremas criações de Shakespeare. Mesmoassim, não se tornou tão popular, no cinema, quanto Hamlet,outra notável criação do dramaturgo elizabetano. Houve muitosHamlets na tela. Comparativamente, houve menos Leares, emborapossam ser relacionados alguns expressivos. No começo dos anos70, surgiram as versões de Peter Brook e Grigori Kozintsev,que transformou o seu rei Lear em Tzar Lear. Jean-Luc Godard feza sua versão nos anos 80 (com Woody Allen e Norman Mailer!). Enão se pode esquecer de Peter Yates e Kristian Levring, quetambém transportaram Rei Lear para a modernidade em O FielCamareiro, de 1983, e O Rei Está Vivo, de 2000. Na sua monumental História da Literatura Ocidental,Otto Maria Carpeaux diz que Otelo, quase sempre definida como atragédia do ciúme, é uma tragédia sofocliana. Seu tema é oencobrimento e a revelação da verdade. E Carpeaux cita o que lheparece o verso mais característico da peça: "Chaos is comeagain." O caos volta em Rei Lear, tragédia essencialmentenoturna, pois noturnas são a cena do temporal, quando Foolserve de coro trágico à loucura do rei, e também a filosofia doverso com que Don Boyd abre seu filme: "Fez dos homens à suasemelhança, mas matava-os por prazer." Boyd transforma seu Lear num homem de negócioscontemporâneo. São negócios escusos: transações com vacas, queservem para o transporte de drogas. Logo no começo, a mulher deLear, interpretada por Lynn Redgrave, morre num incidente banal.Isso reforça nele a necessidade de retirar-se, que já haviamanifestado antes. Richard Harris divide sua posse entre asfilhas. Como na peça, concentra as propriedades na mais jovem,que se chama Joanne. Ela não quer e, por isso, o pai a repudia.Mais tarde será a única a ajudá-lo. Tal é a trama, que Boydtransporta razoavelmente para a época atual. O problema é que,na passagem de época e cenário, Rei Lear perde o pathos.Observa-se uma espécie de banalização do sentido trágico dapeça. É uma peça de dimensões cósmicas, na qual a naturezainteira gira em torno da cruel incompreensão do dilema humano.Carpeaux diz que Lear antecipa o Godot de Samuel Beckett, mas essa é outra história. O importante é que a peça, parafuncionar, exige a demonstração das forças da natureza. Atempestade não é só um artifício cênico. Peter Brookcompreendeu-o. Seu Lear - o filme baseia-se na sua encenação - éinterpretado por Paul Scoffield. É rei de um reino bárbaro,cujos cenários são constituídos por peles de animais, fazendouma ligação primitiva do homem com a natureza. Boyd é mais cleane menos denso. Não atinge nunca a intensidade do sofrimento doLear de Akira Kurosawa que, em Ran, vira umcego pateticamente guiado pelo bobo, equilibrando-se à beira doabismo, que, para o mestre japonês, representa o caos.Serviço - Uma Questão de Família (My Kingdom). Drama. Direção deDon Boyd. Ing/2001. Duração: 117 minutos. 18 anos

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