Uma produção pautada pela indignação e intensidade

Babenco é capaz de operar tanto no registro do realismo como no de um cinema metafórico

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

18 de agosto de 2009 | 08h44

Hector Babenco reafirma na entrevista que se fez brasileiro por indignação, para poder expressar sua crítica à violência e à corrupção do aparelho repressivo, durante a ditadura militar, em Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Pouco depois, com Pixote, a Lei do Mais Fraco, ele abriu uma vertente que prosseguiria com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Babenco é um dos mais singulares autores de cinema do Brasil. É um narrador exigente, e não raro brilhante, capaz de operar tanto no registro do realismo como no de um cinema mais interiorizado e até metafórico.

 

Ele prefere O Passado e Coração Iluminado, que não foi bem de público e dividiu a crítica. Babenco foi à forra, arrebentando na bilheteria com Carandiru - O Filme. O tributo ao diretor, no Canal Brasil, vai permitir que se vejam filmes há muito fora de circulação, como O Rei da Noite e Lúcio Flávio. Com Pixote, a Lei do Mais Fraco, será exibido hoje o tributo de Babenco ao ator Fernando Ramos das Silva, Pixote - In Memoriam. Babenco foi atrás de familiares e atores daquele filme mítico.

 

Babenco faz cinema no Brasil desde o começo dos anos 70 - quase 40 anos, portanto. Independentemente de se gostar mais, ou menos, deste ou daquele filme, a obra é coerente e, mesmo quando faz sucesso de bilheteria, o diretor não cede à facilidade. Um certo número de cenas que ele realizou expressam nossa identidade na tela - o tango, paradoxalmente, de O Rei da Noite; a Pietà de Pixote; aquele cão que avança pelo corredor crivado de mortos, as vítimas da chacina policial, em Carandiru - O Filme. Mesmo quando indignado, Babenco não facilita as coisas. Mais do que chacina, que reproduz com intensidade, o tema de Carandiru talvez seja a ética dos bandidos na cadeia, talvez seja a discussão do que é, ou como é, ser bandido zé-povinho num país de tamanha impunidade.

 

Brincando nos Campos do Senhor é pró-índio, sem dúvida, e O Beijo da Mulher Aranha subverte o discurso político corrente do cinema latino porque o travesti que conta esse filme imaginado para um preso político é um delator. Muita coisa é ambígua no cinema de Babenco, a profusão de travestis consagra a ambivalência e os filmes mais pessoais, os que vêm de dentro, tratam de dolorosas questões morais, debatem a criação, o amor, o desejo. Babenco diz que a pior coisa da doença que quase o matou era o sentimento de impotência diante da vida, que paralisava o desejo. Ele é um sobrevivente, na arte e na vida. Fez grandes filmes, criou grandes cenas, fez ainda maiores os grandes atores. O tributo a Babenco presta-se muito bem a uma (re)descoberta.

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