'Uma Passagem para Mario' proporciona experiência estética

Eric Laurence faz o que não deixa de ser um ato de amor e amizade

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2014 | 19h00

 Existem filmes - que os norte-americanos chamam de popcorn movies - que não têm outro objetivo senão divertir. Às vezes, até conseguem. November Man - Um Espião Nunca Morre pertence à categoria e é feito com razoável competência pelo diretor Roger Donaldson, que cria uma espécie de antologia do melhor da espionagem. Um exemplo de cinema não desagradável, mas descartável, sem dúvida. E existem filmes raros, que proporcionam experiências estéticas e humanas.

É nessa categoria que se inscreve Uma Passagem para Mário, de Eric Laurence, que não se assemelha a nada que você tenha visto recentemente. Talvez a A Culpa É das Estrelas, mas aquela era uma ficção, sem medo de ser piegas. Uma Passagem é documentário, mas narrado em linguagem poética. É um filme sobre amizade, sobre morte e permanência.

De cara, somos apresentados a um Mário careca mas feliz, que mergulha no paraíso de Fernando de Noronha. Mário teve câncer, fez quimioterapia, perdeu o cabelo, mas sente-se bem. Quer fazer, antes que seja tarde demais, a viagem de seus sonhos, atravessando o Brasil (e a América do Sul) para chegar ao deserto de Atacama.

Uma visita ao médico freia as expectativas de Mário, mas ele não desiste da viagem. O amigo Laurence o segue com sua câmera - no fundo do mar, no consultório do médico, na estrada, no deserto. O Atacama é um lugar mágico e misterioso. Tem estado no cinema brasileiro, em filmes de Jorge Duran (Romance Policial) e Éder Santos (Deserto Azul).

Por que o deserto? Por que metaforiza a experiência humana, talvez. Ao mesmo tempo que viaja com Mário, Laurence contempla sua viagem interior. Na tela do notebook, no escuro, Mário se vê como imagem, em registros que fez. O cinema não vence a morte mas perpetua a vida. Mário vira uma imagem projetada nas montanhas, numa noite gélida. Eric Laurence fez o seu Nick’s Movie, belo como o de Wim Wenders. Um ato de amizade e de amor ao cinema.

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