"Uma Onda no Ar" discute cidadania

Helvécio Ratton estava feliz na quarta-feira à noite, após o evento que reuniu, no Unibanco Arteplex, no Shopping Frei Caneca, dois presidenciáveis (Ciro Gomes e Anthony Garotinho), mais os vices de Lula (José Alencar) e José Serra (Rita Camata). Todo esse pessoal foi reunido por Viviane Senna, do Instituto Ayrton Senna, para ver o filme de Ratton que estréia nesta sexta-feira, Uma Onda no Ar. Houve debate após a exibição, e os candidatos receberam cópias do projeto de Viviane para uma política da juventude no País. "Meu filme está saltando do gueto", dizia o entusiasmado Ratton. "Está pulando da tela para a vida."Ele conta que fez Uma Onda no Ar para dialogar com a sociedade. O filme põe, de novo, a favela nos cinemas. Nesse sentido, é completamente contemporâneo de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que trata do mesmo universo. Contemporâneo e diferente. Meirelles fez o seu Notícias de Uma Guerra Particular. É um filme de raro impacto, muito bem-feito e que não estetiza nem a miséria nem a violência. Ratton não alcança o mesmo impacto. Trabalha num registro mais low profile, exibe mais defeitos - a própria desigualdade das interpretações -, mas ganha pontos por sua ideologia. Ao contar a história da Rádio Favela, de Belo Horizonte, Ratton investe na cidadania.Foi, aliás, o que disse o ator Babu Santana, que faz o personagem Roque. Ele estava na terça à noite, no próprio Espaço Unibanco, durante a entrevista que o diretor deu à reportagem. Babu mora na favela por opção. Militou na política estudantil,. agora integra o grupo Nós do Morro, do Vidigal, que não leva teatro aos favelados, mas faz o teatro dos favelados. "Quando recebi o roteiro do filme, gostei imediatamente porque é um raro filme em que o pessoal da favela, no qual me incluo, sai ganhando."Ratton conta a história de uma vitória e ela não foi fácil. A Rádio Favela surgiu do idealismo de amigos que queriam dar voz à comunidade. Sofreu todo tipo de pressão e repressão, mas, no fim, obteve reconhecimento e transformou-se em rádio educativa. Para contar essa história, Ratton tomou algumas decisões (éticas e estéticas) que definiram imediatamente o tipo de filme que queria fazer. Não queria atores conhecidos e, menos ainda, globais. Queria criar uma imagem que fosse adequada para expressar a realidade da favela. Essa imagem ´tosca´, como ele define, não foi fácil de concretizar. Está no filme por opção, não por desleixo.E Ratton queria fazer um filme popular. "Meu cinema é popular, de A Dança dos Bonecos a O Menino Maluquinho e Amor & Cia, diz. Às vezes, ele acha que há preconceito dos críticos contra um cinema que se pretende popular. ?É como se eles se perguntassem: mas é só isso? Quero falar com o público, sim, quero dialogar com a sociedade, com certeza, mas não se trata de não dizer não importa o quê." O que Ratton quer dizer em "Uma Onda no Ar" é relevante. Seu filme trata de temas como desigualdade e exclusão social e racismo. Discute a liberdade dos meios de comunicação.Uma coisa que o diretor considera muito importante é o diálogo entre a favela e o asfalto que o seu filme promove. "É a própria história da rádio", ele diz. "A Rádio Favela nasceu no morro, comprometida com a comunidade, mas foi aceita no asfalto." Com todos os defeitos que o filme possa ter - esquematismo, certa ingenuidade -, é uma obra generosa e honesta. Ratton gosta de dizer que cinema, no Brasil, se faz com recursos públicos. Com sua capacidade de emocionar e fazer pensar, o cinema deve retornar à sociedade, dialogando com elas sobre as questões mais urgentes que afligem o povo brasileiro. Uma Onda no Ar nasceu com essa proposta.Serviço - Uma Onda no Ar. Drama. Direção de Helvécio Ratton. Br/2002. Duração: 92 minutos. 14 anos

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