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'Uma Noite no Museu 3' marca a despedida do ator Robin Williams

Novo filme recebeu o prêmio de direção em Cannes e Levy

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2015 | 03h00

Shawn Levy não é exatamente um diretor que os críticos considerem autor, mas ele é. Um filme como Uma Noite no Museu 3 - O Segredo da Tumba, que toma hoje de assalto mais de 600 salas de todo o Brasil, é mais do que mero entretenimento. Para quem souber ver, o filme, com alguma ajuda da providência, termina por encerrar uma experiência completa - humana e estética. Numa entrevista por telefone, quando estava lançando Uma Noite Fora de Série, com Steve Carrell e Tina Fey, Levy contou como foi marcado pelo melhor Martin Scorsese - Depois de Horas -, quando ainda era jovem. O filme recebeu o prêmio de direção em Cannes e Levy, quando resolveu se tornar diretor, fez dele o seu bê-á-bá. Dissecou-o. Tomou-o como referência justamente para Uma Noite Fora de Série. O que o atraía em Depois de Horas era o fato de o pesadelo angustiosamente real que subverte a vida de Griffin Dunne podia ser recebido às gargalhadas pelo público.

Ao repórter do Estado, Levy confidenciou: tudo bem se as pessoas, os críticos, não percebiam as intenções nas entrelinhas de seus filmes. O importante é que, enquanto os filmes faturavam, os produtores lhe davam carta branca para que ele fizesse suas pequenas loucuras. Quantos espectadores já pararam para pensar por que as coisas acontecem à noite nas comédias do diretor? Uma Noite no Museu 1, 2 e 3, Uma Noite Fora de Série, até em Gigantes de Aço - seu filme de robôs, com Hugh Jackman - , é sempre um universo noturno o que Levy filma. Michelangelo Antonioni gostava de auroras, por mais desencanto que os novos dias trouxessem para seus personagens confrontados com o vazio da existência. Ingmar Bergman preferia o que chamava de ‘hora do lobo’, o instante antes do amanhecer. Shawn Levy ama a noite.

Uma Noite no Museu 3 começa num sítio arqueológico no Egito, décadas atrás. Uma expedição descobre a tumba do faraó. Seus integrantes não ligam para as advertências de um dos guias, que alerta contra o fim. Passam-se os anos e agora o vigia noturno Larry Daley (Ben Stiller) está inaugurando uma nova etapa do seu Museu de História Natural. Ela começa com um show de efeitos, ou o que, para a plateia, parece um show de efeitos. Nós, que seguimos o amigo Larry, sabemos que é outra coisa - magia. Em minutos, vamos descobrir que o equilíbrio que tem permitido fazer com que os seres inanimados do museu adquiram vida está ameaçado. Uma placa da tumba do faraó é que energiza todo esse mundo - fantástico? - e ela está ameaçada. Para tentar salvar seu mundo, Daley e os amigos - o caubói e o soldado romano miniaturizados, o cavaleiro confederado, o mongol, o macaquinho e o homem do Neanderthal que se considera filho do vigia - embarcam numa aventura que os leva a um museu de Londres, onde estão os demais vestígios daquela expedição primitiva ao Egito.

Encontram o velho faraó (Ben Kingsley), que agradece a Ben Stiller por lhe devolver o filho, mas adverte que o mundo fantástico está desaparecendo porque é energizado pela luz da Lua, e a placa há muito não recebe seus raios. Inicia-se uma corrida para que a placa seja exposta ao luar, mas ela foi roubada por outro acréscimo ao grupo de aventureiros do museu. Há também um Lancelot, que confunde a placa com o Graal e a rouba para levar a Camelot, de forma a reencontrar Arthur e Guinevère. Lancelot é interpretado por Dan Stevens, que se tornou conhecido na série Downton Abbey. Ele não apenas revela um ótimo timing de comediante como seus olhos azuis provocam desatinos inesperados em quem você menos espera na história. Tem gente saindo do armário na trama.

Enquanto devolve o filho ao faraó, Larry está tendo problemas com seu filho, que quer voar com as próprias asas, fazer suas escolhas. E Larry tem de lidar com esse homem primitivo que se considera seu filho. Chega um momento na história em que todos os amigos do herói têm de considerar a hipótese de que seu mundo vá mesmo acabar, e que todos morrerão. Justamente Robin Williams faz comentários sobre o que são a família e a paternidade, e também sobre a inevitabilidade da morte que são pertinentes. A morte do ator confere a essas cenas e palavras um significado mítico - testamental? Mas quando a magia é renovada, e tudo volta, é como se Shawn Levy, o artista, estivesse refletindo sobre o cinema, símbolo de vida e morte, como já nos explicou Wim Wenders (em Nick’s Movie). A experiência é completa. O filme termina, como O Hobbit 3. Fala de amor (a segurança e o homem primitivo, o parzinho gay), a arte (a invasão da montagem de Camelot, as lutas dentro da gravura de M. C. Escher). Lancelot vira Hamlet. Tudo fica complexo, mas essas reflexões são o plus a mais, como diria Daniel Filho. É possível só sentar e se divertir (muito). Só não vale dizer que Uma Noite no Museu 3 é descerebrado. Seria um insulto com o (imenso) talento de Shawn Levy.

Além de Williams, a comédia traz a última participação do lendário (e quase centenário) Mickey Rooney 

Melhor filme da série, Uma Noite no Museu 3 termina com um plano que mostra Ben Stiller, como Larry Daley, olhando de fora para o mundo que integrou por três filmes. É como se ele se despedisse - o fecho de uma experiência de vida. Seria difícil, de qualquer maneira, seguir com a franquia, e não porque o diretor Shawn Levy não tivesse capacidade de se reiventar. O filme que hoje estreia perdeu alguns de seus atrativos. A morte de Robin Williams - em agosto - confere um caráter testamental a certas falas do ator que se referem justamente ao fim da existência, com suas inevitáveis questões. O que resta?

Mas há também Mickey Rooney. Ele morreu em 6 de abril do ano passado. Tinha 93 anos. Teria feito 94 em 23 de setembro. Mickey Rooney tem uma pequena participação em Uma Noite no Museu 3. Faz um dos internos do asilo em que Larry vai procurar o último sobrevivente da expedição que descobriu a tumba do faraó. Rooney aparece com outros velhinhos, também atores, numa cadeira de rodas. Talvez pressentindo que fosse morrer, mas na verdade como uma homenagem, a produção lhe dá direito até a fala. O personagem, Gus, foi praticamente deletado no primeiro filme.

Oito casamentos, 300 filmes, dezenas de peças, incontáveis séries e participações na televisão. A carreira de Mickey Rooney foi uma das mais longevas do show biz dos EUA. Começando como astro infantil, ele fez a passagem do período silencioso para o sonoro e permaneceu mais de 80 anos em evidência. Teve altos e baixos, e no fim da vida lutava na Justiça contra familiares que tentavam espoliá-lo de seu patrimônio. Mais um pouco, e se teria tornado centenário - como Manoel de Oliveira, George Burns ou Luise Rainer, que morreu nesta semana, aos 104 anos.

Mickey Rooney nasceu Joseph Yule Jr. no Brooklyn, em Nova York. E, embora tenha permanecido tanto tempo diante das câmeras, é provável que o espectador, ao evocar seu nome, lembre-se do menino Andy Hardy, que protagonizou numa série de 15 filmes nos anos 1930/40. Formou uma dupla memorável com Judy Garland. Contracenou com Carmem Miranda. Apesar da cara de (eterno) garoto, casou-se com um dos maiores furacões sexuais que já assolaram o cinema - Ava Gardner. E não devia ser subestimado. Laurence Olivier disse certa vez que Rooney foi o maior dos atores. E Clarence Brown, que dirigiu Greta Garbo - e fez com ele (e Elizabeth Taylor) A Mocidade É Assim -, acrescentava que gênio só havia conhecido um, e era Mickey Rooney. 

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