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'Uma Noite em Sampa', de Ugo Giorgetti, capta o medo que assombra a metrópole

Longa consegue flagrar São Paulo e sua gente

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2016 | 05h00

Em seu novo filme, Uma Noite em Sampa, que estreia nesta quinta-feira, dia 26, Ugo Giorgetti toma como ponto de partida uma prática bastante disseminada no turismo cultura da cidade, a do grupo de pessoas que freta um ônibus e vem do interior do Estado em busca de uma noitada agradável. Começam por uma peça de teatro, depois vão a um restaurante e, por fim, embarcam de novo no ônibus de volta às suas casas.

Só há um porém. O motorista sumiu e ninguém sabe onde foi parar. O ônibus continua fechado, as outras pessoas vão indo embora e o grupo vê-se abandonado, em frente ao Teatro Ruth Escobar. A noite avança e o medo começa a tomar conta das pessoas. Todas elas têm experiência do que é viver em São Paulo. São ex-moradores que se mudaram para o interior em busca de melhor qualidade de vida. Voltaram agora à metrópole para um programa rápido e agradável. E agora estão com medo.

Em conversa com o Estado, Ugo, que dirige o filme e assina o roteiro, conta por que resolveu escolher esse tema. “Quis falar um pouco desse medo generalizado, que pode ser real ou imaginário, mas que acaba paralisando as pessoas”, diz o cineasta.

Para traçar esse retrato de cidade, Ugo trabalha em locação única, sempre em frente ao Ruth Escobar. E escolhe um elenco que vem em especial do teatro paulistano, gente que ele conhece do palco. Um dos seus atores preferenciais, Otávio Augusto, faz uma participação especial, numa cena rápida como um motorista de táxi.

“São atores e atrizes que eu conheço do teatro paulistano, sempre me convidam quando estão estreando alguma peça.” Ugo fala que queria trazer para o filme esse rigor, esse artesanato, próprio da gente do teatro. “Esse é o diferencial deles e, além do mais, ensaiamos muito, o que permitiu fazer o filme todo em dez noites.” Apesar do ensaio, ele diz, tudo, ou muita coisa se modifica no momento de rodar. “Quando a gente está em locação, com a câmera ligada, o papo é outro”, afirma ainda.

Sobre a opção por uma locação única, o diretor diz que tem facilidade para isso: “Gosto do diálogo e uma situação como a descrita no filme pede muitas falas”. Bem-humorado, não disfarça: “Mas também tem outra coisa: quando você está duro, e eu estou sempre duro, uma única locação diminui uma barbaridade o custo”.

Uma Noite em Sampa trabalha de maneira hábil a paranoia urbana, o medo sem objeto definido, que paralisa e não deixa quem se sente ameaçado tomar decisões adequadas. É, sobretudo, um estudo sobre a espera e também fiel radiografia da mentalidade da classe média, que se colocou à frente do palco político nos últimos tempos.

“É incrível isso, porque comecei a escrever em 2013, quando as manifestações surgiram e não tinha a menor ideia de que o texto iria adquirir tamanha atualidade”, recorda ainda o diretor Ugo Giorgetti. Uma Noite em Sampa, que estreia nesta quinta-feira, dia 26, faz sutis referências a um determinado modo de ser do brasileiro, como o autoritarismo diante dos subordinados, a percepção de que se é dono do mundo e que todos os desejos devem ser atendidos sem mais demora.

Aquela história do “Eu estou pagando!”. À menor contrariedade, vem a frustração. Em seguida, a agressividade e, logo, o pânico. “Acho que algumas metáforas se tornaram também muito atuais, como a do ônibus cujo motorista sumiu, do veículo desgovernado, sem piloto, o mundo à deriva”, afirma o cineasta paulistano.

A paranoia do grupo é tanta que qualquer coisa pode assustar. Por exemplo, um homem que passeia com o cachorrinho pode estar planejando algo de mau para as pessoas. Pior ainda quando um grupo de sem-teto se aproxima, porque costuma dormir naquele local, e começa a cozinhar alguma coisa para comer. As relações entre classes se evidenciam e se acirram. Todos se afastam dos moradores de rua e olham com nojo o que cozinham. Menos uma senhora de idade, que está acompanhada da filha. A idosa faz amizade com o grupo de sem-teto e até aceita tomar uma sopinha com eles.

Outra cena é curiosa, e sintomática. Uma patroa foi com a empregada à peça de teatro e, preocupada com quem vai abrir a firma na manhã seguinte, pede à funcionária que tente sair daquele lugar e voltar para casa. “Não tem problema”, garante a empregada. E acrescenta: “Se eu conseguir uma condução, posso ficar com o dinheiro do táxi?”. Quer dizer, para sair daquele impasse, bastaria atravessar a rua e ir embora. Mas quem ousa?

Uma Noite em Sampa é, acima de tudo, um filme pensado nas dimensões da espera e da paralisia. “Um crítico fez relação com O Deserto dos Tártaros (romance de Dino Buzatti, filmado por Valerio Zurlini, de 1976). Fiquei honrado, acho que pode ser, todas essas influências estão aí, no ar”, adianta. Outros podem ainda ver alusões a Esperando Godot, de Samuel Beckett. Mas a referência mais evidente é ao clássico do surrealismo Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, no qual um grupo de burgueses não consegue deixar uma sala, sem qualquer motivo aparente.

Por que fazer um dos personagens citar esse filme em vez de deixar que os espectadores percebam por si sós? Giorgetti responde à pergunta com humor e fina ironia: “Para tirar o pão da boca dos críticos”, diz ele, sabendo que uma das diversões favoritas dos jornalistas de cinema é descobrir citações e alusões a outras obras dentro dos filmes.

Em meio a essa brincadeira, fala-se de algo muito sério e palpável – a indústria do medo, de como a sensação de temor é instilada nas pessoas, em seu cotidiano, no dia a dia de uma cidade caótica e desigual. “Você anda de carro e vai ouvindo os programas policiais, com a narração de crimes em cima de crimes. Na TV, a mesma coisa, com programas sensacionalistas. Tudo isso acaba gerando um medo que vai muito além do razoável”, acrescenta.

E há também a questão dos bairros da cidade. Os lugares tidos como seguros e outros estigmatizados. “Quando estamos no centro, então, o pânico é total, como se fôssemos ser atacados a qualquer instante”, lembra ainda o diretor. Ugo Giorgetti, que é colunista do Estado, é um cronista do centro de São Paulo, que ele evocou em seu documentário A Outra Cidade, falando do tempo em que a vida inteligente e civilizada acontecia justamente na hoje desvalorizada parte central da cidade.

Para essa grande encenação do medo da classe média, Giorgetti, além da locação única, usa um recurso original: alguns dos personagens são manequins, que “contracenam” com gente de carne e osso. Qual a razão do recurso? “Ora, eu vou dizer uma coisa que pode parecer estranha, mas é verdade, para mim, os manequins no filme funcionam mesmo como atores de verdade. Você nunca viu, por exemplo, um casal em que somente um deles fala, enquanto o outro se cala? Ou dois amigos, em que um tagarela o tempo todo e outro só escuta?” Apenas isso? “Bem, os manequins são ótimos. Não reclamam, não se cansam nem temos de dar de comer a eles”, ri também Giorgetti.

Piadas à parte, o cineasta considera que a presença desses manequins representa uma quebra de paradigma narrativo. “A gente mostra que não está no domínio do realismo completo”, explica. De fato, a presença silenciosa daquelas figuras produz um efeito de estrutura, traz uma estranheza adicional, bastante interessante. “Acho que deixa claro que tudo aquilo é muito mais uma fábula do que outra coisa qualquer”, avisa o diretor. Digo a ele que as fábulas não são inócuas, elas nos dizem respeito. “De Te Fabula Narratur.” As fábulas falam de ti, escreveu Horácio na Antiguidade.

SÃO PAULO, PELA LENTE DO CINEASTA

Sábado

Giorgetti mostra um velho edifício do Centro, que já conheceu dias melhores. Decadente, só tem agora um luxuoso elevador como memória dos tempos de luxo, que é alugado por uma agência de publicidade que deseja filmar um comercial. Durante a gravação, a turma fashion da publicidade irá conviver com os empobrecidos moradores locais.

O Príncipe

O personagem principal é um homem que saiu do Brasil há muitos anos e agora está de 

volta. Vai visitar a mãe no bairro da Vila Madalena e encontra o antigo bairro residencial transformado numa babilônia de barzinhos da moda. Já o Centro da cidade, que ele costumava frequentar com os amigos, virou um caos.

Boleiros 1 e 2

O cenário principal é o de um bar tradicional, onde ex-jogadores e gente ligada ao futebol se reúnem para contar histórias do passado. Essas histórias remetem a jogadores dos tempos românticos, dos grandes clubes de São Paulo. E também do Santos, que, apesar de não ser de Sampa, não poderia ficar de fora de uma história de futebol.

 

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