Carlinhos/Estadão
Carlinhos/Estadão

Uma noite de medo, pizza e pavor na casa de Zé do Caixão

No dia 25 de setembro de 2008, o repórter Julio Maria dormiu na casa de Zé do Caixão, que morreu nesta quarta-feira, 19; releia a matéria publicada à época

Redação, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 09h55

No dia 25 de setembro de 2008, o Jornal da Tarde, veículo do Grupo Estado, publicou reportagem em que o jornalista Julio Maria passava uma noite no apartamento de José Mojica Marins, o icônico Zé do Caixão. A matéria, que agora recuperamos, também é um perfil da intimidade de um dos criadores mais célebres - e subestimados - do cinema nacional. Zé do Caixão morreu nesta quarta-feira, 19, aos 83 anos, em decorrência de complicações de uma broncopneumonia.

Na reportagem, Maria descreve como é o apartamento de Marins, no centro de São Paulo, e a dinâmica da família do artista. O jornalista também desmistifica certas lendas. "Zé do Caixão não dorme em um caixão, não come sopa com vísceras de aranha e não tem uma mãozinha de estimação andando pela casa". Mas arremata: "Se é tudo normal? Não".

Medo!

Engana-se quem pensa que a casa de Zé do Caixão dá medo. Não, ela dá pavor

Zé do Caixão está de cuecas. Uma peça de seda cinza com balões pretos que lhe cobre até os joelhos. Zé escora-se na estante de madeira da sala para tomar um comprimido de Lorax, tarja preta, que o desligará até as 14h do dia seguinte. São 2h40 da madrugada no apartamento de Zé do Caixão, e o repórter se prepara para passar a noite no sofá de sua sala, em um prédio antigo no bairro de Santa Cecília, centro da cidade.

Antes que Zé se vire e siga para seu quarto, faço a última pergunta da noite. “Só mais uma coisa, seu Mojica. O que são aqueles tacos de golfe pendurados na parede? O senhor joga golfe?” Sinto que vem algo estranho. “Não, não jogo. Aqueles tacos estavam no meu filme Sentença de Deus, que eu não consegui terminar e abandonei, por julgá-lo amaldiçoado.” Amaldiçoado? “Eu perdi três atrizes que fariam o papel principal neste filme. A primeira perdeu a perna em um grave acidente. A segunda morreu tuberculosa. E a terceira morreu afogada em uma piscina.” Os tacos ficarão ali a noite inteira, a apenas dois metros de distância da minha cabeça. A noite será longa.

Foi com a cara, a coragem, uma escova de dentes e uma muda de roupa na mala que cheguei para passar a noite com a família de José Mojica Marins, o cineasta paulistano criador do lendário Zé do Caixão. Assim que entro, sua mulher Neide pede minhas medidas. Altura? 1,79. Mas para quê? “É para pedir o caixão em que você vai dormir hoje”, ela diz e sorri. Zé sorri. O repórter sorri. E ninguém mais fala no assunto. Ali, no calor humano da sala de Zé, com sua filha Nilsinha checando o Orkut do pai; seu neto Pedrinho à frente da Toshiba 34 polegadas; sua vizinha Adriana, sua mulher Neide e sua empregada Cida em um papo de amigas na mesa ao fundo da sala; alguns mitos vão caindo. E outros, surgindo.

As lendas que ouvimos desde criança são lendas mesmo. Zé do Caixão não dorme em um caixão, não come sopa com vísceras de aranha e não tem uma mãozinha de estimação andando pela casa. Se é tudo normal? Não. A casa de Zé do Caixão não é normal. Seu bucólico costume de colecionar esqueletos, miniaturas de túmulos, caveiras, imagens egípcias e máscaras, além de réplicas de corpo humano, dessas que se vende em bancas de revista, já consumiu todos os centímetros das paredes. “Eu tento sumir com algumas coisas, mas ele não deixa”, diz Neide. A única imagem mais familiar é um relógio de parede do Corinthians, com o lema ‘Campeão do Mundo de 2000’. Há também muitos livros, centenas, títulos que vão da enciclopédia Barsa a romances de Jorge Amado. Até o corredor que liga a sala ao quarto e ao banheiro tem prateleiras com milhares de gibis que Zé coleciona. “Só não se assuste no banheiro”, avisa Neide. O antigo banheiro tem outra prateleira, com publicações de conteúdo mais adulto. É lá que Zé guarda suas revistas eróticas.

Quando está em casa, Zé do Caixão não senta. “Não gosto de sentar.” Enquanto fala, anda pela sala e fuma. Não mexe no teclado do computador por causa de suas unhas, algumas ainda bem grandes, mas dita as regras à filha Nilsinha, que checa seu Orkut com mensagens de, até aquela noite, 769 pessoas adicionadas. “Grande mestre, quando é que seu filme estréia aqui em Santa Catarina?”, diz um fã. “Acredita que eu sonhei com o senhor? É estranho esse nosso mundo, né?”, diz outro. Uma garotinha com aparência de quem tem 15 anos quer assistir ao mais recente filme de Zé, que tem o título de A Encarnação do Demônio. Zé dita a resposta para Nilsinha teclar. “Se for assistir, vá com seu pai e sua mãe. O filme é muito forte.”

Hora do jantar. Zé pede pizza de queijo e uma garrafa de guaraná Dolly. Sentamos à mesa eu, Neide, Cida e a vizinha Adriana. Zé fica em pé e não come, mas fala. “As pessoas acham que o espírito de um morto fica rondando seu corpo, mas não é isso. Os corpos soltam um gás colorido depois de um tempo que estão sem vida. Vi isso em uma chacina, tentei filmar, mas não consegui.” E era só a primeira rodada de pizza. “ Zé, e quando nós vimos aquela mão ali na área?”, diz Neide. A área, só para efeito geográfico, está a um metro de mim, separada por uma vidraça. “A mão vinha do apartamento vizinho. Ela mexia em umas madeiras ali fora”, lembra Zé. E quem era a dona da mão? “Bem, a vizinha havia se suicidado.” Peço mais um copo de Dolly.

A pizza acaba, mas ninguém sai da mesa. “Quando morremos, deixamos aqui a nossa essência. O que vimos não são espíritos, mas a essência das pessoas”, diz Zé, de pé. “Eu mesmo vi a essência da minha mãe dias depois que ela morreu.” Já que estamos no assunto, a mulher de Zé Mojica tem uma idéia. “E se a gente fizer aqui a brincadeira do copo?” A brincadeira do copo consiste em tentativas de se evocar espíritos enquanto os participantes rezam com a mão sobre um copo. O problema, dizem, é quando o tal espírito gosta da brincadeira e resolve passar uma temporada no local. Nilsinha leva o filho Pedrinho para dormir no quarto. “Não, melhor não”, fala Zé. Um sopro de vento mexe as cortinas da sala e todos dão risada. Claro, bobagem, era uma frente fria chegando. Zé faz uma contraproposta. Vamos tentar mexer aquele copo com a força da mente. Ficamos lá em silêncio por 15, 20 segundos. Olhamos para o copo fixamente e ficamos repetindo em silêncio ‘mexe copo’, ‘mexe copo’, ‘mexe copo’. O copo não sai do lugar, até que alguém não suporta mais e cai no riso.

A família dorme tarde, bem tarde. Zé do Caixão conta histórias fantásticas de suas aventuras, quando se envolveu com malucos que o têm como uma espécie de líder espiritual. Já o pegaram para atrair lobisomem no meio do mato. “E eu lá, sendo picado por mosquitos.” Já o colocaram em uma antena de braços abertos para atrair ETs. “E eu fiquei lá, naquela situação.” E já o chamaram para uma ceia sinistra dentro de uma igreja, feita com carne crua. “Se eu não interpretasse o personagem ali, sei lá o que eles poderiam fazer comigo.”

São 2h50. Zé toma seu remédio e segue para o quarto. A família já dorme. Sua mulher traz o colchão e um edredom. Fico ali confortável, apesar do calor. No meio da noite, pulo para o sofá. Se pensar muito nas histórias que ouvi, vou começar a ver sombras, as caveiras poderão piscar. Olho para as máscaras na parede e começo a contá-las. Chego a 37, e nada de sono. Penso no santinho de Frei Galvão de papel que levo na carteira. Às 6h30 da manhã, enquanto a família dorme, me levanto e saio zonzo pelas ruas de Santa Cecília. Esperando um táxi, encosto na parede de um supermercado. Duas senhoras garis da Prefeitura passam varrendo a rua. Uma delas olha feio para mim e comenta alto com a outra colega: “Olha aí, rapaz jovem, cheio de saúde, fica aí sem fazer nada, vagabundo. Deveria era ir encher uma laje.”

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