Nina Westervelt/The New York Times
Nina Westervelt/The New York Times

'Uma Mulher Fantástica', 'Strong Island': Oscar terá presença 'trans' histórica

Daniela Vega, atriz transgênero, estrela 'Uma Mulher Fantástica', enquanto Yance Ford, cineasta transexual, concorre pelo doc 'Strong Island'

AFP

26 de fevereiro de 2018 | 14h49

Não é a primeira vez que eles são representados no cinema, mas este ano é diferente: dois filmes sobre transgêneros, feitos e/ou protagonizados por transgêneros, disputam o Oscar, um marco.

Daniela Vega, atriz transgênero, interpreta de modo magistral Marina, uma jovem de luto e vítima dos preconceitos da conservadora sociedade chilena em Uma Mulher Fantástica, indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira. Na categoria documentário, Yance Ford, cineasta transexual, concorre por Strong Island, um filme de inspiração biográfica sobre o racismo e as falhas no sistema judiciário.

"É uma tendência observada há alguns anos, depois de Transparent ou com Laverne Cox de Orange Is The New Black na capa da revista Time, e agora no Oscar", explicou à AFP Larry Gross, professor do Departamento de Comunicação da Universidade USC.

++ Chilena Daniela Vega será uma das apresentadoras do Oscar 2018

Antes de Uma Mulher Fantástica, outros filmes sobre ou com transgêneros venceram no Oscar: Traídos pelo Desejo (1992) venceu na categoria roteiro; Meninos Não Choram (1998) rendeu a estatueta a Hilary Swank; Clube de Compras Dallas venceu em três categorias, incluindo ator coadjuvante para Jared Leto por seu papel de Rayon; A Garota Dinamarquesa (2015) rendeu o Oscar de coadjuvante para Alicia Vikander e virou uma espécie de filme pioneiro do movimento.

Na série de TV Transparent, Jeffrey Tambor interpretava - antes de ser demitido por acusações de assédio sexual - um transgênero, chefe de uma família burguesa da Califórnia, que normalizou a imagem desta comunidade. Mas todas estas produções foram protagonizadas por intérpretes cisgênero, - pessoas cuja identidade de gênero e sexo biológico coincidem -, e não por 'trans'.

E é neste ponto que o Oscar de 2018 é diferente: não apenas as duas produções foram indicadas, os dois filmes foram dirigidos ou protagonizados por transgêneros, um grande reconhecimento. "É um momento sísmico, um pequeno terremoto que espero comece a mudar este campo totalmente", disse Ford à AFP.

"Estamos caminhando pouco a pouco. Se chegarmos ao rio, poderemos atravessar a ponte. Ainda estamos caminhando para isso", afirmou Vega.

Uma mulher comum

Yance Ford destacou a importância de que atores transgêneros possam interpretar papéis de 'trans', mas enfatizou que seu trabalho "transcende o fato de que somos transgênero".

O documentário Strong Island conta a história do assassinato de seu irmão por um homem branco que escapou da justiça, enquanto a vítima se tornava o principal suspeito da própria morte, o que gera um impacto devastador na família.

Em Uma Mulher Fantástica, Vega encarna uma mulher como outras: feminina, frágil, forte e digna. "Marina e eu compartilhamos que somos 'trans', que gostamos de cantar ópera e dos homens bonitos, nada mais", disse Vega à AFP. "Ela é muito mais elegante que eu, tem mais paciência, é uma mulher muito mais pacífica, eu sou mais explosiva, mais latina".

Ford aplaudiu o papel de Vega e a atenção que gerou com sua representação "de uma mulher comum", uma mudança da típica caricatura de 'trans' como em filmes como Tootsie, com Dustin Hoffman.

Gross também recorda que personagens 'trans' eram apresentados como pessoas transtornadas, marginalizadas, depressivas e que Transparent ou Uma Mulher Fantástica mudaram isso, com personagens mais autênticos.

Para o especialista, Hollywood tem a tendência de "colocar uma narrativa como vinho velho em uma garrafa nova", buscando mudanças já usadas em novas tramas. "Já fizeram antes com os homossexuais, os negros, os judeus... e os 'trans' estão na moda", explica.

"O maior desafio é mostrar que as diferenças são boas, ao invés de ameaçadoras", conclui o professor.

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