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'Uma Linda Mulher' é a comédia romântica de maior sucesso de todos os tempos

Filme volta a cinemas de todo o País neste fim de semana

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2014 | 11h52

No início, a história era para ser um sombrio conto moral sobre a prostituição em Los Angeles, mas o roteiro comprado foi sendo retrabalhado até se transformar em Pretty Woman/Uma Linda Mulher. A comédia romântica de maior sucesso de todos os tempos, o filme que lançou Julia Roberts e, instantaneamente, lhe rendeu um Globo de Ouro de melhor atriz de musical ou comédia e uma indicação para o Oscar. Hollywood sempre gostou de Cinderelas, Vivian, a prostituta que Julia cria, virou a Cinderela para o século 21 - que, em 1990, quando o filme foi feito, já despontava no horizonte.

Ela roda a bolsinha - em Rodeo Drive, onde, por sinal, estão as lojas com as marcas mais caras do mundo. Mas Vivian não é uma p... como as outras. Recusa-se a ter um gigolô, escolhe os clientes. Seu príncipe também é um cara esquisito. Há quase 25 anos, Richard Gere estava no auge. Como galã, os cabelos ligeiramente platinados, e ainda por cima fazendo um milionário, bastaria estalar os dedos para que ele tivesse a mulher que quisesse. Mas, casualidade ou não, ao tomar emprestada a Lotus de seu advogado e se perder - justamente na zona de meretrício de Los Angeles -, ele candidamente pede uma informação à mocinha de pernas de fora - e que pernas! Ela, Vivian, lhe dá uma direção para a vida toda.

Uma Linda Mulher é a atração da semana na programação de clássicos restaurados da rede Cinemark. Depois do brutal Scarface de Brian De Palma, com Al Pacino, muda o tom. Sai o sangue, entra o romance. Pacino, por sinal, era o preferido do diretor Marshall para o papel, mas ele recusou. Marshall pensou em outras alternativas - Daniel Day Lewis, Denzel Washington. Seria totalmente outro filme. Vivian, no primeiro roteiro, era drogada. Denzel, um príncipe negro? interessante, mas, talvez, arriscado. Gere foi a escolha sábia. Por que ele, como Edward Lewis, contrata uma prostituta para acompanhá-lo em seus compromissos sociais na cidade é coisa que o roteiro não se preocupa muito em explicar. O que importa é a transformação da garota com potencial, mas um tanto bruta, numa princesa. Com o cartão do seu príncipe, Vivian entra na primeira loja de luxo que vê. A vendedora tenta enxotá-la. A mensagem é que as pessoas valem mais que aquilo que você vê. Com o banho adequado de butique, Vivian reluz. O espectador apaixona-se por ela. Como Edward não iria se apaixonar também? A questão é - Edward, que bancou a transformação da garota, vai bancar a outra transformação, maior ainda? Vai se casar com ela?

O tema da transformação está no centro de Uma Linda Mulher. O diretor Garry Marshall e o roterista F.J. Lawton pegam carona no mito de Pigmaleão e Galatéa, que inspirou, por exemplo, My Fair Lady. O professor Higgins pega uma garota da rua e faz dela uma dama. Elisa não é prostituta. Vende flores. Vivian é - prostituta. Nada que boas roupas, e boas maneiras não possam mudar. Mesmo sem forçar a barra, a comédia romântica fica a um passo do melodrama. E tanto que a ópera italiana, La Traviata, contribui com a ária Dammi tu Forza. Com a trilha adequada - Pretty Woman e It Must Have Been Love, com Roy Orbison e a banda Roxette -, o filme estourou. Virou, na relação custo/benefíocio, o maior sucesso daquele ano. Revelou uma estrela. Julia, com um penteado mais desleixado e sobrancelhas grossas, havia feito um filme pequeno - Mystic Pizza. Era uma das três garotas que trabalhavam na pizzaria portuguesa de uma cidadezinha pesqueira. O filme de Donald Petrie, por sinal, chamou-se Três Mulheres, Três Amores no Brasil. Já era uma história de Cinderela. O riquinho apaixona-se pela garçonete, mas precisa de coragem para enfrentar a família. Lá, a transformação era do príncipe.

Aqui, o príncipe também se transforma. No ano anterior, 1989, o Muro de Berlim havia desmoronado. Esfacelara-se o comunismo. Garry Marshall cria o conto do bom capitalista - uma fantasia pós-comunista. Edward Lewis está na cidade para se apossar do negócio de James Morse (Ralph Bellamy, em seu último papel). Tem um advogado inescrupuloso (Jason Alexander) que dá em cima de Vivian. Jason é o que Edward seria, se não fosse adoçado pelo amor da garota nota 10. E ele até oferece um novo negócio a Morse. Fica todo mundo feliz. Sendo um conto de fadas, Uma Linda Mulher precisa dela - a fada-madrinha, que ocorre ser um padrinho. Hector Elizondo é Barney, o gerente do hotel que vai superar a resistência a Vivian. Ele a ajuda a comprar a roupa certa, a usar o talher certo à mesa. Tudo e todos funcionam, mas é Julia a alma do filme. A própria Pretty Woman. Como Vivian, ela venceu resistências e ganhou o Oscar (por Erin Brockovich, de Steven Soderbergh, em 2000). Tudo perfeito, mas quando Hollywood quis reproduzir o sucesso e juntou de novo Julia e Gere em Noiva em Fuga, de novo sob a direção de Marshall, em 1999, o público não quis saber. Moral da história - contos de fadas não ocorrem a toda hora.

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