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Uma leitura sensível de 'Miss Julie'

Na adaptação da peça de Strindberg, a diretora Liv Ullmann se mostra boa observadora da psicologia dos personagens

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2015 | 07h00

Senhorita Júlia é uma das peças mais conhecidas e encenadas do sueco Johan Strindberg (1849-1912). Ganhou várias adaptações no cinema, entre as quais uma brasileira, a de Sérgio Silva, por ele batizada de Noite de São João. A versão mais recente é de Liv Ullmann, atriz e diretora, que ambienta a história na Irlanda.

É lá, no final do século 19, que se desenrola esse drama amoroso e de classes sociais, com tal percepção da psicologia dos personagens e da arquitetura da sociedade da época que acabou por se tornar um texto clássico. Temos, basicamente, um trio em ação, sendo que um dos polos ocupa posição mais discreta no drama. John (Colin Farrell) é o serviçal de um castelo. Julie (Jessica Chastain) é a filha do barão, que está em viagem, porém prestes a regressar. Kathleen (Samantha Morton), também empregada da propriedade, é noiva de John.

Miss Julie (vamos manter o título do filme, apesar do título consagrado em português, Senhorita Júlia) é um estudo profundo sobre como as rígidas distinções de classe se inscrevem nos corpos dos personagens. Numa sociedade muito ciosa de sua hierarquia, como aquela descrita no texto, abre-se um abismo intransponível entre John e Julie. Mas há o humano imperativo do desejo, que os atrai para, depois de satisfeito, ceder espaço de novo para as diferenças. “Classe é classe”, diz-se abertamente durante a história, como se estivéssemos tratando de um valor absoluto. E, de fato, estamos – é esse valor que empurra a história na direção da tragédia, sob o olhar compassivo, mas também conservador, de Kathleen (na boa interpretação de Samantha).

Pode-se dizer que Liv Ullmann, como cineasta, é boa observadora da psicologia dos personagens. Em especial de Julie, tipo bastante paradoxal, que atravessa várias etapas em sua curva dramática – da provocação sensual ao amor, depois à fragilidade e ao colapso. John, pelo contrário, vai da submissão mais absoluta à fantasia de dominação masculina, passando por nuances interessantes no percurso. Às vezes se comporta como poltrão; noutras, como vítima. Encontra seu ponto de equilíbrio como homem atravessado de contradições que, depois de atingido seu objetivo, preocupa-se apenas em salvar a pele.

Daí se vê que Miss Julie é, em essência, um dueto, em que dois instrumentos, macho e fêmea, se revezam no solo e no acompanhamento, como piano e violino nas sonatas. Com preponderância, é verdade, do elemento feminino, traço claro da leitura mais feminista de Liv Ullmann. Há, de fato, algo de musical no relacionamento entre Julie e John, inclusive nas escalas ascendentes e descendentes praticadas pelos personagens. Por exemplo, quando fala de seus sonhos, Julie diz seu desejo de submergir, ir ao fundo e lá encontrar o prazer. O de John, pelo contrário, é de ascensão. Ele diz sonhar com uma árvore enorme que busca escalar. Nada é mais claro, nesses desejos superpostos, que a fantasia de rebaixamento de uma e de escalada social de outro. Em um ponto da vida, esses desejos se cruzam e se completam – para separar-se em seguida, com suas fatais consequências.

Em termos cinematográficos, a opção de Liv Ullmann foi reforçar a origem teatral da peça de Strindberg e concentrá-la em três personagens. De outros, só se escutam vozes e rumores, como os do povo, que festeja lá fora o solstício de verão, o dia mais longo do ano, enquanto no interior do castelo a tragédia se arma entre os amantes. Liv é uma grande atriz. Só para lembrar sua colaboração com Bergman, contam-se obras como Cenas de um CasamentoPersonaSonata de Outono, entre outras. Bergman era, ele também, um aficionado de Strindberg, de sua agudeza na percepção dos relacionamentos, apesar do viés misógino.

Tudo vem misturado quando se avalia o trabalho de Liv como cineasta, porque o de atriz é indiscutível. E assim, tendo trabalhado tanto tempo com um mestre, sente-se que dele assimilou a captação da profundidade dos personagens, mas nem tanto a invenção de linguagem cinematográfica, marca do grande Bergman. Ainda assim, trabalhando de maneira mais convencional, Liv faz uma sensível e intensa leitura de Senhorita Júlia

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