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'Uma História de Loucura' externa a dificuldade de quebrar o círculo cego da violência

Filme de Robert Guédiguian é ambicioso

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2016 | 04h00

Não falta ambição ao novo filme de Robert Guédiguian. Ao evocar o genocídio armênio cometido pelos turcos no início do século 20, o diretor francês se propõe discutir nada menos que o papel da violência na história. E, junto com esse tema espinhoso, a possibilidade do perdão e do entendimento entre rivais históricos. 

As primeiras imagens são em preto e branco. Estamos em 1921, em Berlim, quando Talaat Pacha, principal responsável pelo genocídio, é assassinado na rua por um jovem militante armênio, Soghomon Thelirian. O processo marca época, pois o rapaz admite sua responsabilidade, mas, em face de toda a tragédia do povo armênio, o júri popular o absolve.

Num salto de 60 anos no tempo, um moço francês de origem armênia junta-se a um grupo armado e pratica um atentado contra o embaixador turco. Na ação, um ciclista, Gilles Tessier, que nada tinha a ver com a história, fica ferido e perde o uso das pernas. O terrorismo atinge seus alvos, mas também fere e mata inocentes.

Em termos dramatúrgicos, Guédiguian faz com que a família de Aram e Gilles se aproximem. A mãe de Aram, Anouch, é vivida por Ariane Ascaride, atriz fetiche e mulher do diretor. Ariane é um prodígio. Aqui, ela faz a mãe piedosa, preocupada com o filho. De certa forma, o jovem ferido, Gilles, funcionará como filho substituto de Aram, enquanto este se refugia em Beirute, junto ao grupo armado a que pertence. 

Pode-se fazer reparos ao filme. Em especial quanto à lógica sinuosa que leva o injuriado a se aproximar de quem o feriu. Talvez seja mais fácil raciocinar pelo oposto - afastamo-nos de quem nos fere e, se o procuramos, é apenas para tentar feri-lo também. Ou seja, realizar a vingança. 

Ora, todo o suposto artificialismo de Guédiguian vem do fato de ele tentar o oposto, o mais difícil. Num mundo de violência e intolerância, vai no sentido contrário, na tentativa de compreensão das razões do outro. E isso por alguém que foi prejudicado de maneira muito grave. Mas Guédiguian é um cineasta maduro e pensador experimentado. Não cai na tentação do humanismo fácil e, por isso, enreda-se nas linhas tortuosas que podem levar tanto ao acirramento quanto à reconciliação. 

Entre a febre da violência e a indiferença das razões de Estado, tenta a linha média, que passa apenas pelas pessoas e não pelas grandes causas políticas. Se alguma satisfação nos dá, o filme também parece cheio de inquietação. E essa fica conosco, muito tempo depois de a projeção terminar. 

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