Uma história da Resistência na França

(...) Tendo ficado a sós, Bertrand (o padastro) chama sua secretária e começa a ditar-lhe um artigo sobre a vida dos prisioneiros, que ele redige em nome de François: "Volto da Alemanha, onde fiquei prisioneiro durante dois anos. Dirijo-me às mães francesas e lhes digo: `Tenham confiança!´" No dia seguinte, pela manhã, reunião do Comité de Resistência. Dornier, Merlin, Picard e mais alguns outros. Lamblin não está presente. Alguém indica uma empresa a ser tentada: duas granadas incendiárias no escritório da Gestapo no Hotel X... Com isso se atearia fogo a centenas de documentos da Resistência, talvez se chegaria a salvar vidas... Só é preciso estudar a questão com cuidado. Esta ação certamente custará a vida a muitos homens. A dificuldade será como penetrar no hotel, cujos acessos são muito bem guardados. Picard se oferece como voluntário. Ele renunciou a ir para a Inglaterra, seu posto de combate é aqui. Lamblin chega, François estende-lhe a mão. Lamblin não a aperta. E diz: "Vamos realizar uma exclusão." Lamblin tem na mão um jornal e o faz circular. " - Dornier, foi você que escreveu isso?" " - Eu não li o jornal hoje de manhã", responde Dornier surpreso, "mas sei que não escrevi nada e que jamais escreverei nada". O jornal é colocado sob seus olhos. "A vida no campo" (de prisioneiros) . Artigo de primeira página, com assinatura. Picard pega o jornal, lê o texto e quer lançar-se sobre François, mas é contido. Ele o chama de "seu porco!" François, antes de tudo arrasado, nega com força, mas Lamblin o interrompe: "- É inútil. Eu colhi minhas informações. Você não nos disse jamais porque voltou da Alemanha. Mas eu sei, você conseguiu que o libertassem do cativeiro como colaborador de L´Éclair Rouennais. François se defende. "- A prova de que eu ignorava isso é que eu queria fugir com Picard e Merlin." Merlin o interrompe. "- Era uma trama. Você sabia muito bem que seria libertado. Você fez que o libertassem no dia da fuga e você nos abandonou." Granadas incendiárias Procede-se à exclusão. A votação é feita levantando a mão, em silêncio. Unanimidade. François, profundamente ferido, nem se defende mais. Levanta-se e dispõe-se a partir. Lamblin lhe diz: "- Há ainda uma coisa que você deve saber: você é talvez, acima de tudo, um indicador. Se algum de nós for preso por uma denúncia, o primeiro a ser morto será você." François sai sem responder. Lamblin ouve por um momento o ruido de seus passos diminuindo escada abaixo, depois diz aos outros : " - Ao trabalho!" François na rua. Ele caminha muito depressa. Tem o aspecto feroz (...). François está quase alucinado, vê em toda a parte homens com L´Éclair. Passa em frente à redação de L´Éclair. O jornal está afixado, com o "seu" artigo, na vitrine. Toma uma decisão. Vai ao alemão (...) " - Felicitações, seu artigo foi excelente." " - Não fui eu que o escrevi. Venho dizer-lhes que me recuso a qualquer colaboração com vocês." O alemão se inclina friamente. Toca a campainha. Dois soldados entram. Eles cercam Dornier, a quem o alemão explica que será levado de volta ao campo de prisioneiros e, sem dúvida, enviado a um campo de punição. Dornier não responde. Está calado e taciturno. Os dois soldados o fazem sair (...) O rosto de Dornier muda. Ele tomou sua decisão. A partir desse momento até o fim não será mais aquele tipo meio fraco que era até então, demonstrará a energia desesperada do homem que nada tem a perder. Os soldados o conduzem à prisão, onde ele deverá esperar para ser levado ao campo de prisioneiros. Na rua, aproveitando-se de um acidente, ele escapa e se põe a correr. Os soldados o perseguem. Disparos de revólver. Mas ele lhes escapa... Na mesma noite, Dornier bate à porta de seus parentes. O pai vem abrir-lhe. " - Preciso de duas granadas incendiárias". Ele as toma consigo e sai. Hotel Molitor, entrada de serviço. François entra e segue pelo corredor. Penetra no local da Gestapo, lança suas granadas e foge do local (...)

Agencia Estado,

23 de dezembro de 2000 | 19h11

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