Uma Feira das Vaidades a preço de ocasião

É apenas razoável esta adaptação de Mira Nair para a Feira das Vaidades (Vanity Fair), do britânico-hindu William Makepeace Thackeray, o mesmo de Barry Lindon. E isso, apesar de toda a parafernália envolvida num filme de época, caprichado, caro, às vezes luxuoso. A história, filmada outras vezes, tem como protagonista a, como chamaríamos hoje, alpinista social Becky Sharp (Reese Witherspoon), nascida em família pobre na Inglaterra, mas vocacionada para as altas rodas. Assim ela pensa, já que é filha de um pintor e de uma dançarina. Órfã, tem de se virar como pode. E descobre uma oportunidade ao tornar-se governanta das crianças de um nobre, Pitt Crawley (Bob Hoskins). Becky consegue ganhar a simpatia de uma tia solteirona da família Crawley e desse modo prossegue sua trajetória rumo ao topo. Ou assim ela pensa, já que os limites entre classes sociais são bem mais rígidos do que supõe. Essa é a arte de William Makepeace Thackeray - mostrar a violência das convenções sociais que se escondem atrás de uma polidez artificial. Esse trabalho com o verniz da sociedade é muito interessante e poderia ser elaborado com mais nuances por Mira Nair. Afinal, ela conhece bem aquilo que está descrevendo, sendo ela própria de origem indiana, e agora radicada nos Estados Unidos. É, portanto, o mundo anglo-saxão em desfile e isso no século 19, em plena vigência do império. Nessa sociedade de classes, passar de um andar para outro na escala social pode ser uma proeza tão temerária quanto escalar o Everest. Ainda mais quando se tem uma ascendência como a de Becky, filha de artistas e, portanto, de pessoas não muito levadas a sério pelos que detêm os cordões do poder político e econômico. Portanto, as démarches de Becky terão um tom de façanha, às quais não faltam nem mesmo lances de desapego e heroísmo quando Napoleão dá início à guerra na Europa. Para ser justa com seu original literário, Mira Nair deveria atentar para as filigranas, para os subentendidos, as frases ditas pela metade, como está no texto de Thackeray. Na transposição para o cinema, tudo fica mais explícito. De certa forma porque isso é quase inevitável. Boa parte da violência classista se passa mesmo no nível da linguagem, na maneira como as coisas são ditas, nas entonações, ênfases, respirações de frase. E Becky, vivida por Reese Witherspoon, parece disposta a provar que teve uma educação de primeira, apesar de suas origens. Prova com ênfase demais, e o que ganha em convicção perde em nuance. Mas, no fundo, tudo isso está bem de acordo com a concepção de cinema de Mira Nair, uma diretora apenas mediana que acabou ganhando destaque mundial ao vencer um Festival de Veneza com seu também somente razoável Casamento à Indiana. Essa vocação para os grandes quadros, para uma comparação entre a sociedade hindu e a inglesa, o destaque para personagens femininos, está tudo lá, na proposta talvez mais profunda dessa cineasta internacional. Mas nada disso, e nem o fato de viver essa tensão entre seu país e a ex-metrópole bastam para dar profundidade a personagens que não a têm. Não é tanto o caso de Becky, afinal um tipo clássico, saído da literatura e já sacramentado por outras versões para o cinema, e cuja história se presta bem a uma leitura dramática. De fato, a ascensão social de Becky não se faz senão à custa de uma sucessão de desilusões amorosas, traições em princípio pequenas mas que conduzem a resultados desastrosos, guerras conjugais e guerras reais. Bem lido, o texto é uma crítica feroz, embora irônica, a essa estratificação rígida, que divide os seres humanos segundo suas origens. No entanto, seguindo as próprias tendências, Mira Nair opta por atenuar esse drama subjacente. Não faz de Becky uma cabecinha de vento, pois isso seria trair a personagem na base. Mas a esvazia da consciência trágica de que tanto esforço talvez no fim não valha a pena. Opta por saídas mais fáceis, menos ásperas, talvez mais comerciais. E não deixa de imprimir essa política de luvas de pelica nem mesmo no estilo empregado no filme: acadêmico, formal, pouco inventivo. Não é um mau filme, mas fica muito aquém das possibilidades que tinha de início. Feira das Vaidades(Vanity Fair, EUA-Ing/2004, 141 min.). Romance. Dir. Mira Nair. Bristol 5 - 18h20, 21h10, (6.ª e sáb. tb. 23h59). Cine Bombril 1 - 14h, 19h, 21h30. Jardim Sul 3 - 18h30, 21h15 (6.ª e sáb. tb. 0h). Market Place Playarte 1 - 2h40, 15h30, 18h30, 21h10 (6.ª e sáb. tb. 23h59). SP Market 1 - 13h25, 16h20, 19h15, 22h20. Unibanco Arteplex 7 - 13h, 17h20 (sáb. também 0h). Cotação: Regular

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