Mars Films/Poisson Rouge Pictures
Mars Films/Poisson Rouge Pictures

'Uma Família de Dois' prega respeito por quem é diferente

Longa flagra as mudanças na estrutura familiar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2017 | 19h46

Sucesso de público na França, Uma Família de Dois fez 3,5 milhões de espectadores no país. “Nos demais mercados em que foi lançado fez mais 4,5 milhões, o que significa que já foi visto por 8 milhões de pessoas”, conta numa entrevista por telefone, de Paris, o diretor Hugo Gélin. Algum parentesco com Daniel Gélin, que foi um astro na França nos anos 1940 e 50? “Era meu avô.” Hugo, de 37 anos, admite que o avô despertou seu amor pelo cinema. “A família tem mais atores, mas foi ele, sim.”

Uma Família de Dois estreia nesta quinta, 29, nos cinemas brasileiros. É um remake de Não Aceitamos Devoluções, produção mexicana de 2013 que bateu recordes no país de origem. “Fui bem fiel à história original, mas, se você comparar os dois, vai ver que há uma diferença muito grande. Até o desfecho é o mesmo, mas o filme mexicano puxa para o dramalhão e eu quis fazer meu filme mais leve, divertido.” E, claro que ter Omar Sy como protagonista faz toda diferença. “Escrevi o filme para ele, pensando nele. Se Omar não tivesse aceitado, não creio que conseguisse fazer o filme com outro ator.”

Embora se trate de um remake, Hugo Gélin defende seu filme como ‘bem pessoal’. “Sou pai de um menino de 7 anos, que tive muito novo. A paternidade inesperada fez de mim outro homem, mais responsável. Omar (Sy) nunca havia feito um pai no cinema. Achei que seria um desafio interessante para ele. Esse bon vivant que, de repente, muda sua vida porque tem uma filha. Situar o personagem no universo do cinema - é dublê - lhe permitiu liberar a imaginação em cenas de ação e humor. E os personagens secundários também foram ganhando colorido. O tio gay, a mãe ausente que volta.”

Impossível não pensar em Kramer Vs. Kramer, de Robert Benton, que venceu vários Oscars em 1979. Meryl Streep desaparece, deixando o encargo de criar o filho para Dustin Hoffman. Ele se desdobra para ser esse misto de pai e mãe - ‘pãe’. Quando está numa boa, Meryl reaparece para brigar na Justiça pela guarda do filho. “O filme foi outra referência tão fundamental quanto o original mexicano. Há quase 40 anos, Kramer Vs. Kramer foi pioneiro ao flagrar mudanças na estrutura familiar”, diz Gélin. Em Uma Família de Dois, a mãe volta e briga pela filha. Sucedem-se as reviravoltas. Por mais leve que Hugo Gélin tenha querido ser, o clima pesa. Tem até, olha o spoiler, morte.

Embora a entrevista, a seu pedido, seja feita em francês, Hugo arrisca algumas palavras em português. “Tive uma babá portuguesa, meu melhor amigo é português e eu passei muitas férias em Portugal”, explica. O amigo é cineasta e ele escreveu e produziu A Gaiola Dourada, sobre uma comunidade de portugueses em Paris, para Rubens Alves dirigir. Ama o Brasil. Adolescente, integrou um intercâmbio de estudantes durante o governo do socialista François Mitterrand. Embrenhou-se na floresta amazônica, foi levar medicamentos aos índios, conheceu de perto sua cultura.

“Ao transpor o filme mexicano para a França e colocar Omar Sy no centro da história, acho que estou deslocando o eixo para o ‘outro’, num momento em que há tanta discriminação. Ter estado em Portugal, no Brasil foi muito importante para mim. Mesmo que de forma periférica o filme busca passar esse entendimento, esse respeito por quem é diferente de nós.”

'Não há quem não se renda ao carisma de Omar Sy'

Hugo Gélin, diretor de Uma Família de Dois, concorda com o repórter - Omar Sy é uma força da natureza. “Ele transborda a tela com sua vitalidade e sorriso. Deve haver algum maluco que não, mas não conheço ninguém que não se renda ao carisma de Omar.” Filho de mãe mauritana e pai senegalês, Omar nasceu em Trappes, Yvelines, em janeiro de 1978. Fez carreira como dublador e humorista, em 2000, estreou no cinema.

Tornou-se um fenômeno quando Intocáveis, que protagonizou com François Cluzet, virou o filme francês mais visto de 2011, com 11 milhões de ingressos vendidos, totalizando a maior renda da história do cinema na França. 

Omar Sy fez também Chocolate, que integrou o Festival Varilux no ano passado. Foi parar em Hollywood, mas o papel (pequeno) em Jurassic World - Mundo dos Dinossauros não dá conta de suas personas. E falando em inglês, ele também perde muito a graça.

 

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