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Uma fábula para tempos modernos

Rebecca Thomas fala de 'A Fita Azul', em que uma jovem mórmon atribui gravidez a uma gravação de rock

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2014 | 02h06

Rebecca Thomas criou-se numa família de mórmons, mas não como os que retrata em A Fita Azul, seu filme em cartaz nos cinemas do Brasil. Tinham telefone, fax. Não negavam a tecnologia. De uma maneira que nem ela sabe explicar direito, foi para Los Angeles, porque queria contar histórias, e percebeu que o cinema seria sua mídia. Com A Fita Azul, ela fez sucesso no Sundance Festival. O público de lá adorou seu filme e A Fita Azul - Electric Children, no original - foi vendido para todo o mundo, incluindo o Brasil.

A história é inusitada, para dizer-se o mínimo. Uma garota mórmon engravida e atribui o fato à fita do título, um registro de rock (and roll). Naturalmente que todo mundo ironiza o fato, mas garota insiste na sua versão. E parte para Las Vegas, a capital do jogo nos EUA, em busca da voz responsável por sua gravidez. Como se conta uma história dessas? "Acreditando no inesperado e no maravilhoso", diz a própria Rebecca numa entrevista por telefone.

A entrevista foi realizada durante a Mostra de Tiradentes, onde os filmes, autorais e de "processo" são difíceis de enquadrar num só gênero. O filme de Rebecca também dá a impressão de trafegar por diversos gêneros. Documentário, comédia, drama. Ela prefere condensar tudo isso numa só palavra - "fábula". Diz que A Fita Azul é uma fábula moderna. "O espectador tem de aceitar certas coisas que nunca encarei como inverossímeis, ou impossíveis. Foi minha maior dificuldade durante toda a realização. Esse filme necessita de um tom, e eu pensava - será que estou contando minha história da maneira correta? No limite, descobri que o que eu necessitava era da cumplicidade do espectador, que ele entrasse no clima. Parei de me preocupar e fiz o filme como achava que deveria ser, achando que talvez encontraria meu público, o público que esse filme exige. Sundance foi muito importante porque descobri que havia público para meu filme. Fui depois a Berlim, e uma plateia completamente diferente também entrou no clima."

Sem nouvelle vague, e ambientado num universo mais particular - talvez -, A Fita Azul tem alguma coisa do clima de Frances Ha, o longa de Noah Bambauch, que tanto sucesso fez nos cinemas brasileiros. O fato de trabalhar com a repressão - e conceitos religiosos - pode ser que não torne tão atraente para o público mais descolado, mas essa história toda tem certo encanto. Ele passa pela atriz Julia Garner, que faz o papel, assim como o encanto de Frances depende muito da adesão do público à atriz e roteirista Greta Gerwig. "Tinha consciência de que meu filme dependia muito da escolha da atriz, e por isso fui rigorosa", conta Rebecca.

Depois de muitos testes - centenas -, ela chegou a Julia Garner. "Ela é o oposto da minha personagem. É judia, nova-iorquina, cosmopolita. Como uma pessoa assim pode encarnar uma interiorana ingênua e crédula? É um dos mistérios da arte. O fato de um ator, ou uma atriz, poder fazer uma personagem que lhe seja tão diversa. Julia me surpreendeu o tempo todo. Quando eu ia lhe dizer uma coisa, ela já tinha sacado tudo sobre a personagem. Acho que faço cinema para trabalhar com atores, com gente. Se não existe adesão, entrega, o filme não acontece."

O sucesso de A Fita Azul abriu portas para Rebecca Thomas. Agora mesmo, ela estuda, entre tantos ofertas, qual vai aceitar (e fazer). Algumas ideias incluem TV. Na contramão do discurso que considera a TV mais criativa que o cinema nos EUA da atualidade, Rebecca não se interessa. "A TV é muito industrial, muito rápida. Enquanto puder, vou querer fazer cinema. Foi o cinema que me fez ter vontade de fazer filmes. Quero continuar fiel à minha primeira paixão."

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