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Uma cinematografia mais diversificada ainda é o desafio nacional

Números representam um belo progresso em tempos mais difícieis, mas ainda há muito a caminhar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2013 | 22h37

Talvez seja exagero considerar esses números favoráveis como uma espécie de ponto de chegada do cinema brasileiro, Pelo contrário, há muito a caminhar. Mas que significa um belo progresso em relação a tempos mais difíceis, isso ninguém há de negar. Ainda mais se compararmos, como deve ser feito em termos de rigor historiográfico, com o início da década de 1990, quando o cinema brasileiro quase chegou a desaparecer. Isso, convém recordar, deu-se durante o governo Collor, quando todas as entidades de apoio ao cinema foram liquidadas com uma penada. A produção limitou-se a dois ou três longas por ano, com ocupação quase nula do mercado.

Com Collor defenestrado, deu-se início a uma política de recuperação, com leis de incentivo e concursos emergenciais. Esta época foi batizada de “retomada” e assistiu ao crescimento progressivo da produção. Alguns marcos a sinalizaram como Carlota Joaquina – a Princesa do Brasil, de Carla Camurati, que rompeu a barreira de um milhão de espectadores. Ou, mais recentemente, Tropa de Elite 2, que superou a marca “insuperável” de quase onze milhões de ingressos de Dona Flor e Seus Dois Maridos, lançado no auge do prestígio e eficácia da Embrafilme.

Ao longo desses anos, a produção brasileira foi se estabilizando em torno de um patamar de 10 a 15% de ocupação do mercado interno, em termos de bilhetes vendidos nos cinemas – o chamado “market share”. A produção de filmes tem aumentado, mas a ocupação do mercado nem tanto. Um número não depende diretamente do outro. Por exemplo, há um boom de documentários, possibilitado, em especial, pela chegada das novas tecnologias digitais que baratearam a produção. Muitos desses filmes se restringem ao circuito dos festivais, ou ocupam horários muito restritos nas salas de exibição. Muitos entram e saem de cartaz com número mínimo de espectadores.

Por outro lado, é voz corrente que o público tem se tornado cada vez mais seletivo e monotemático. Em termos de cinema nacional fazem sucesso comédias protagonizadas por atores globais ou histórias de ídolos do rock. Aos que escapam a essa regra geral não cabe outro recurso senão chamá-los de exceções. Filmes de temática ou linguagem alternativas não têm muita vez no mercado. Disputam cada vez mais a atenção de um público segmentado, que também se interessa pelas exceções internacionais. Pouca gente para muito filme. Salas lotadas com documentários brasileiros ou ficções do Irã ou do Casaquistão, durante os festivais, não devem enganar ninguém. No resto do ano esse público mais receptivo some. E ficam as comédias, cujo veio ninguém consegue avaliar quanto tempo pode durar. Será explorado ad nauseam, mas não para sempre.

Resta o desafio de apresentar uma cinematografia mais diversificada e que esta encontre seu público. E que esse feliz encontro se dê de maneira durável. A longo prazo, é claro, isso não se fará com o experimentalismo estéril restrito a alguns festivais e nem com o prolongamento da estética e temática da TV na tela grande. O hermetismo de butique e esse recurso fácil ao elenco “global” não podem dar os frutos que se esperam. Até lá será preciso descobrir essa parcela do público que deseja ser respeitada pelos diretores mas também não se conforma com o mais do mesmo nas telas.

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