"Uma Cidade" conta história de Salvador

Mônica Simões estreou na direção com um trabalho chamado Eu Sou Neguinha. Desde então, a situação do negro tem estado presente em sua obra, por meio de documentários como Mulheres Negras e Quilombos Urbanos. A condição do negro não é o elemento principal, mas está de novo presente em outro documentário de Mônica. Uma Cidade terá sessão aberta amanhã, às 20 horas, no Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158, em São Paulo). No dia 12, estréia no Rio, no Centro Cultural Banco do Brasil, que vai fazer uma retrospectiva da obra de Mônica, mostrando nove de seus trabalhos mais premiados e prestigiados.Uma Cidade é um documentário sobre Salvador, a cidade em que Mônica nasceu, mas leva esse título genérico porque está longe de ser um documentário turístico ou institucional sobre a capital baiana. Mônica, de certa maneira, conta a história da vida privada de Salvador, por meio de filmes domésticos realizados entre 1920 e 70. Ela explica o porquê dos limites traçados por estes 50 anos. "O primeiro registro fílmico de Salvador data dos anos 20 e eu encerro a minha seleção nos 70 porque, a partir daí, com o vídeo, a maioria dos registros domésticos passaram a ser feitos nesse formato." Mônica trabalha só com película em Uma Cidade. Filmes em 35 mm, 16 mm, 8 mm, até mesmo super-8. Todo esse material foi telecinado, boa parte dele teve também de ser recuperada, num trabalho minucioso de pesquisa e (re) criação.Nos documentários anteriores, Mônica sempre captou as imagens. No atual, trabalhou com material já existente. Na verdade, a vontade desse filme data do fim dos anos 80, quando Mônica descobriu velhos filmes de família. Historiadora formada pela Universidade Federal da Bahia, pesquisadora desde os 70, com especialização em História Oral, ela nunca deixou de pesquisar, mas tornou-se, progressivamente, fotógrafa, videomaker e cineasta.Em 1989, Mônica descobriu os tais registros familiares filmados. Imediatamente, quis fazer alguma coisa com esse material, mas o quê? O projeto cresceu, tomou forma. Ela agregou filmes domésticos das famílias de amigos e foi buscar o restante do seu material no Departamento de Som e Imagem da Fundação Cultural do Estado da Bahia, o MIS, Museu da Imagem e do Som, deles. Com esse material, montou o documentário que será exibido amanhã. São 52 preciosos minutos que compõem uma história da vida privada de Salvador, mostrando a evolução dos costumes. Até a 2.ª Guerra Mundial, a elite soteropolitana, que se permitia esse tipo de documento filmado, copiava o modo europeu de ser e, por isso, a Salvador dessa época se assemelha a qualquer cidade européia.Imediatamente depois da 2.ª Guerra, o modelo de referência passa a ser outro - a sociedade baiana (e brasileira, em geral) americaniza-se. Nos anos 60 e 70, as mudanças de comportamento são mais radicais, até mesmo na maneira de filmar. É nessa época que o negro deixa de ocupar o pano de fundo para ganhar destaque nos registros filmados. Interessada pelo assunto Mônica capta esse momento, essa passagem.Até por não ter captado as imagens, Mônica considera Uma Cidade uma experiência especial de sua carreira. Diz que o filme nasceu de um cruzamento de olhares - o de quem fez esses registros anônimos, o das pessoas filmadas e o dela sobre esse material riquíssimo, as 20 horas filmadas que ela condensou em menos de uma.Destaca a importância do patrocínio da Petrobrás, que financiou integralmente o projeto, investindo os R$ 118 mil que permitiram à diretora dedicar-se totalmente ao filme nos últimos seis meses. O material coletado nas diferentes fontes de pesquisa foi inteiramente telecinado em Beta. Só então Mônica fez a sua montagem, reduzindo para menos de uma hora as 20 horas de que dispunha. No fim, ela editou 2 mil fitas de vídeo. Parte delas foi distribuída à imprensa, outra parte aos convidados da sessão especial que Uma Cidadeteve em Salvador e o restante cerca de 1.500 fitas, foi entregue à Petrobras, para distribuição na rede escolar e clientes preferenciais da empresa.Além da análise dos costumes, Mônica descobriu outra coisa durante a realização desse vídeo - o efeito do tempo na película. Vários, quase todos os filmes antigos estavam deteriorados e alguns deles nem puderam ser recuperados. As marcas da deterioração muitas vezes criavam um efeito plástico que a diretora incorporou ao trabalho. Ela fez a montagem na Videofilme e a finalização nos Estúdios Mega. Ganhou mais que um apoiador, um aliado na figura do documentarista João Moreira Salles. João, um dos grandes documentaristas brasileiros (Notícias de uma Guerra Particular), foi generosíssimo com ela.Ele percebeu que Uma Cidade tem um pé no experimentalismo, embora Mônica não encare seu documentário como experimental. "Outros filmes que eu fiz são mesmo experimentais mas esse não acredito muito, não." É um trabalho delicado, sutil. Logo será exibido pela TV Cultura. Ainda bem que na Cultura. A maioria dos documentários exibidos na TV brasileira é didática, tradicional, com um pé no telejornalismo. O público sofisticado da Cultura tem mais condições de apreciar a delicadeza de Mônica.

Agencia Estado,

29 de novembro de 2000 | 17h16

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.