Reprodução
Reprodução

Uma chance para ver a incrível saga de 'Bonnie & Clyde' no cinema

Filme de Arthur Penn de 1967 passa neste fim de semana em rede de cinemas em todo o País

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2014 | 11h39

Bill Condon iniciou-se dirigindo filmes que impactaram os críticos, como Deuses e Monstros e Kinsey. Depois, assinou o volume final, subdividido em dois, da saga Crepúsculo,o que desconcertou muita gente, dada a ambição autoral de sua obra anterior. Bill Condon é um dos diretores que dão depoimentos no livro The Film That Changed My Life. O filme que mudou minha vida. Bill Condon cresceu no Queens, em Nova York, numa vizinhança católica irlandesa. O pai era um daqueles homens que não falavam de sexo. A mãe adorava teatro e o assunto volta e meia surgia na casa por meio dela. Condon sabia da existência de um movimento que havia irrompido (transformado?) o cinema na França, a nouvelle vague. E aí, em 1967, assistiu a Bonnie & Clyde e o filme de Arthur Penn deu-lhe a impressão de ser um experimento da nouvelle vague realizado na 'América'.

Bonnie & Clyde, com o acréscimo brasileiro a seu título - Uma Rajada de Balas -, é o programa desta semana na série de clássicos restaurados da rede Cinemark. Passa no sábado e depois, no domingo e na próxima quarta-feira. Para muitos espectadores jovens poderá ser uma descoberta - a primeira vez que vão ver Bonnie & Clyde no cinema, e não apenas em DVD ou na televisão. Condon não está errado em sua observação sobre o filme. Bonnie & Clyde foi escrito por Robert Newman e pelo futuro diretor Robert Benton com a expectativa de que o projeto interessasse a Jean-Luc Godard ou François Truffaut, mas quem terminou adquirindo o roteiro foi Warren Beatty, que chamou seu amigo Arthur Penn para a direção.

Penn e Beatty já haviam feito juntos Mickey One, um filme tão fora dos padrões hollywoodianos que foi um grande fracasso de público. E Penn tinha aquela reputação de ser o autor jovem que refazia à europeia o cinema clássico de Hollywood. Condon acrescenta que o tema do sexo que percorria/inundava Bonnie & Clyde mexeu com ele numa fase em que, muito jovem, fazia suas primeiras descobertas sobre o assunto. "Havia alguma coisa no filme com a qual me conectei de formas muito profunda. Uma tensão sexual que falava comigo de uma forma que não entendia."

Talvez o jovem Bill Condon não quisesse entender, ou tivesse medo de entender, por que a ambiguidade sexual de Clyde e a forma como ele se relaciona com Bonnie e o garoto que incorporam ao bando remete ao tema da homossexualidade reprimida, ou da bissexualidade, que apareceu mais tarde em seu cinema. São meras suposições, mas a oportunidade de (re)ver o filme de Penn é única. Bonnie & Clyde foi um dos filmes mais influentes de Hollywood em seu tempo, um dos mais influentes dos transformadores anos 1960. Na Warner, alguém (o próprio Jack Warner?) disse que era 'a piece of shit' e, no The New York Times, o crítico Bosley Crowther, o mais prestigiado da época, foi pelo mesmo caminho.

Quando Pauline Kael resgatou Bonnie & Clyde numa crítica que ficou célebre e o público fez do filme um fenômeno, o NYT foi atrás de uma segunda opinião e defenestrou Crowther de seu quadro de críticos.

A história de Clyde Barrow e Bonnie Parker já havia sido contada por William Witney em Gângsteres em Fúria, de 1958, e cerca de 20 anos antes, quando a fama da dupla ainda era coisa recente, havia inspirado o Fritz Lang de Vive-se Uma Só Vez. Clyde e Bonnie uniram-se para assaltar bancos e cometer assassinatos durante a depressão econômica dos anos 1930. Roubar dos bancos numa época em que a execução de hipotecas tirava as terras de pequenos agricultores e proprietários fez deles mitos. Penn, que já enquadrara o pistoleiro Billy the Kid no western psicanalítico Um de Nós Morrerá/The Left Handed Gun, com o jovem Paul Newman, retoma o tema em Bonnie & Clyde, mas o que lhe interessa é outra coisa.

Bonnie & Clyde é, como ele próprio dizia, do tempo em que fazia um cinema psicanalítico, para mostrar que o revólver pode ser um substituto para o falo. Sua abertura não poderia ser mais sugestiva. Faye Dunaway faz Bonnie. Mais do que entediada, estás com a sexualidade à flor das pele em seu quarto. Entra em cena Clyde/Beatty. Uma fala e uma ação e ele já a convenceu a largar tudo para uma vida de aventuras. Mas há um problema. A excitação não basta para Bonnie. Excitada ela já está, ao aparecer pela primeira vez. E Clyde é impotente, usa o revólver como substituto para seu pênis que não funciona. Hollywood já sugerira disfunções sexuais, mas nunca as abordara desse jeito. Bonnie & Clyde, o filme, virou história.

Os dois assaltam bancos e incorporaram o irmão de Clyde e a mulher, e C.W. Moss (Michael J. Pollard) ao bando. Como em Jules e Jim, de François Truffaut e, depois, Butch Cassidy, de George Roy Hill, forma-se um triângulo, Clyde/Bonnie/Moss. Havia críticos que diziam que o problema de Bonnie & Clyde seria oscilar entre a distância de um período lendário e a proximidade de uma psicologia (sexualidade?) contemporânea, quando, na verdade, isso não é um problema e faz a aura do filme. Penn cria sua narrativa em dois níveis de tempo - o presente, ou o mito revivido, e o futuro, a mitificação da dupla em processo, como em Um de Nós Morrerá. O povo idolatra o casal que rouba dos ricos para dar aos pobres e a imprensa contribui para isso. E durante boa parte do tempo, quase todo o tempo, Clyde segue impotente.

Muitos momentos são privilegiados - e o rapto do casal de namorados é um deles. Mas a grande cena divisora do filme é o encontro com a mãe de Bonnie no milharal. Até ali, Bonnie & Clyde é uma comédia, ou quase, marcada pelas perseguições de carros e o ritmo acelerado do banjo na trilha. O carro, na era pré-massificação, entra como um bicho doméstico, como nas velhas comédias silenciosas. A ruptura no milharal torna o clima mais soturno, introduz o tema da morte (e a tragédia). O elenco é decisivo para o clima, e Warren Beatty e Faye Dunaway não são menos que magníficos.

Penn já havia feito grandes filmes e continuaria fazendo - Um Lance no Escuro/Night Moves, de 1975, com o ator que faz o irmão de Clyde, Gene Hackman, é o filme definitivo sobre a era Watergate -, mesmo que o final de sua carreira tenha sido melancólico. Uma sucessão de fracassos de público o transformou em non grato em Hollywood. Ele já seria um outsider - um pária? -, de qualquer maneira. Toda a obra de Penn é uma reflexão sobre como os EUA não conseguem resolver seus conflitos senão por meio da violência. E isso transparece na saga de Bonnie e Clyde.

Tudo o que sabemos sobre:
Bonnie & ClydeCinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.