Um traço de melodrama em <i>Volver</i> de Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar não escondeu sua decepção pelos prêmiosque recebeu no Festival de Cannes, em maio. Há anos que eletenta ganhar sua Palma de Ouro. Chegou perto em 1999, com Tudosobre Minha Mãe, mas teve de se contentar com o Oscar de melhorfilme estrangeiro, no ano seguinte. Voltou à Croisette com MáEducação e com Fale com Ela ganhou o Oscar de melhor roteiro,prova de que os americanos são mais sensíveis ao seu encanto.Com Volver, somou ao prêmio de roteiro o de melhorinterpretação feminina, dividido entre as seis atrizes do novofilme - Penelope Cruz, Carmem Maura, Lola Dëñas, Blanca Portillo Yohana Cobo e Chus Lampreave. Sua cara foi de decepção, masdepois, na coletiva dos vencedores, ele sentiu que deveria seexplicar. Disse que não tinha a sensação de ser o diretor destasmagníficas atrizes e, sim, um membro da família. "Cada uma delascontribuiu para a escrita do roteiro, mesmo sem se dar conta.Talvez até fiquem surpresas com o que estou dizendo agora. Aolongo do festival, eu lia diariamente as críticas e meu nomeestava sempre lá no alto, como favorito para a Palma de Ouro.Acho que é uma maldição. A gente chega vitorioso e sai sem oprêmio que ambiciona. Mas eu estou feliz com o prêmio de roteiroe, mais ainda, com o prêmio dado às atrizes de Volver." Seis,sete anos depois de Tudo sobre Minha Mãe, Almodóvar fez ofilme que realmente merece levar este título. A história tratadessas filhas que regressam à Mancha e reencontram o fantasma damãe. Mas será mesmo um fantasma?Falo das mulheres que me cercavam Segundo o próprio Almodóvar, Volver, já desde o título assinala seu retorno às raízes. "É um tema que me toca, sentialgo de verdadeiramente particular realizando Volver", ele dissena coletiva após a exibição do filme para a imprensa, em Cannes."Nasci na Mancha, vivi em Madri, viajei muito, mas, dentre todosos meus filmes, foi este que me reconciliou com minha juventude.Falo das mulheres que me cercavam quando garoto. Fui criado numafamília de mulheres. Os homens estavam no campo, na colheita,estavam sempre em outra parte. Não os via quase nunca, mas, emcompensação, ouvia essas mulheres, escutava-as cantar, quandoacompanhava minha mãe na beira do rio. Foi assim que tomeiminhas primeiras lições de arte dramática. Escrevi muitos papéisbaseado em minha mãe e minhas irmãs. São personagens com os pésna realidade, mesmo quando pertencem à ficção." Histórias de mortos que voltam à vida pertencem àtradição oral da Mancha. Fantasmas domésticos que participam davida cotidiana das famílias. Foi assim que começou a tomar formaa história da mãe de Penelope Cruz, interpretada por CarmemMaura, com quem Almodóvar não filmava desde Mulheres à Beira deUm Ataque de Nervos, em 1988, há quase 20 anos. Penelope, nofilme, tem contas a acertar com essa mãe de quem se afastou eque teria morrido, por amor, num incêndio enquanto estava nacama com seu amado. Mas Penelope também tem uma filha e seenvolve num assassinato, tendo de encobrir um crime. É destamaneira, entre passado e presente, que se desenvolvem as duashistórias, uma interferindo na outra e ambas traçando esteretrato definitivo da mãe. "Tudo sobre minha mãe". Não é só às suas raízesmanchegas que Almodóvar regressa. É também às suas raízescinematográficas, ao amor pelo melodrama, pelo filme noir. Elepróprio cita que a origem do seu filme está num velho melodramade Michael Curtiz, com Joan Crawford - Alma em Suplício(Mildred Pierce), de 1946, ao qual foi superposta uma históriaque leu no jornal, numa viagem pela América Central, sobre umhomem que havia cometido um assassinato, tendo conseguidoacobertar seu crime durante anos. Desde o início, ele escreveu o filme para Penelope Cruz,mas ela ia fazer a filha, depois sua personagem evoluiu para ajovem mãe e, quando Carmem Maura foi incorporada ao projeto,Almodóvar deu-se conta de que estava falando sobre mulheres dediferentes gerações, da juventude à velhice. Foi um filme queele amou fazer. É um filme que você poderá ter imenso prazer aoassistir. É inteligente, brilhante, trágico como uma letra detango-canção (Volver, que fornece a trilha para Luzes naEscuridão, de Aki Kaurismaki, também exibido na 30.ª Mostra),mas em última análise humorado como só um grande filme deAlmodóvar sabe ser. Volver (Espanha/2006, 121 min.) - Comédia dramática Direção de Pedro Almodóvar. 14 anos. Em grande circuito.Cotação: Ótimo

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