Um rosto novato para Cazuza

Quando soube que o filho passou no primeiro teste para encarnar Agenor de Miranda Araújo Neto no longa-metragem da Globo Filmes, dona Aurora, mineira, aposentada, tratou de correr às livrarias de Belo Horizonte atrás de um exemplar do livro Cazuza - Eu Preciso Dizer que Te Amo, de Lucinha Araújo, mãe do cantor, e enviá-lo para o Rio. "Tinha certeza de que o papel seria dele. A gente sempre pensa positivo e era algo que o Daniel queria muito", diz. A mãe de Daniel Oliveira, 25 anos, até agora mais conhecido como o namorado da atriz Débora Falabella, estava certa. O ator de Brida, Malhação e A Padroeira, acabou escolhido entre mais de 50 candidatos. Foi ajudado pela pouca fama, já que o produtor, Daniel Filho, e a diretora, Sandra Werneck, buscavam um rosto novo - e, segundo Sandra, pela sinceridade com que improvisou uma situação da vida de Cazuza. Já Lucinha viu no segundo teste do jovem ator o jeito agridoce do compositor. Algo que Daniel intuiu a partir do livro dela. "Ali a Lucinha abre o jogo", diz ele. "Eu já tinha procurado o livro numa loja mas não achei. Deixei rolar... Como eu tinha pouca informação do que representava esse Cazuza - eu sabia quem era, um cara público e notório, mas não tinha muita intimidade com a figura dele - não podia imitá-lo no teste. Então não fui por esse lado. Apostei em minha intuição, procurei mostrá-lo como eu achava que ele era: um cara que é ligado na tomada e ao mesmo tempo tem um lado doce. Misturei essas coisas."Daniel, que tinha apenas 12 anos quando Cazuza morreu, encontrou na relação mãe e filho o primeiro ponto de identificação com o autor de cujas letras não chegou a cantar. "Como ele, sou Édipo declarado, colado à minha mãe. Eu posso falar tudo com ela, a gente é amigo. Mãe é uma coisa meio complicada. Você sai de dentro, brota, é expelido dali. É uma ligação muito forte", diz. O ator não é filho único. Tem uma irmã, Iolanda, que é médica em Belo Horizonte, mas também é o confidente eleito da mãe, que esteve no Rio para o seu aniversário, no último dia 19. "Trouxe queijo e polvilho de Minas para fazer pão de queijo. Preparei tudo o que ele gosta: camarão, risoles de milho", contou dona Aurora. Foi assim, em família - que inclui a namorada, com quem mora no Rio -, que Daniel acompanhou a vitória brasileira no jogo contra a Inglaterra, na madrugada de sexta-feira. O casal vive junto há um ano e meio. Nas entrevistas, Débora refere-se a Daniel como namorado. Mas ele escancara logo. "A gente está casado, acorda junto, dorme junto, juntou os trapinhos e vai levando. Qualquer dia, se cismar, a gente casa", diz. O relacionamento ajuda a amenizar as saudades da família e dos amigos. "Ela é mineira, também lá de Belo Horizonte, então acho que a gente se encontra nessa carência aí", analisa. Os dois se conheceram na cidade natal, onde faziam teatro, por intermédio de Cynthya Falabella, a irmã que substituiu Débora na novela O Clone e que além de atriz é produtora cultural. "Ela nos convidou para recitar uma poesia num programa da TV Cultura. Mas o encontro de verdade só aconteceu mais tarde, quando um amigo meu, que estava namorando a Cynthia, me chamou para ir ao cinema com elas." O filme sobre Cazuza, que começa a ser rodado até o fim do ano, pode ser uma nova chance para Daniel e Débora trabalharem juntos. A hipótese foi levantada pela diretora. "Gosto muito do trabalho da Débora. Vamos ver se ela se encaixa em algum papel", diz Sandra. Escolher o protagonista foi um passo importante para viabilizar a produção. Mas ainda há etapas determinantes a serem cumpridas. A primeira versão do roteiro, de Paulo Halm, está sendo revista por Douglas Dwight. Falta escolher os atores que vão interpretar Ney Matogrosso e os integrantes do Barão Vermelho. E, o principal, falta captar metade dos recursos necessários. Mesmo assim, a diretora espera começar a filmar entre outubro e dezembro. "Tem que ser esse ano. A idéia é lançar o filme no primeiro semestre do ano que vem", diz, revelando que Leandra Leal pode interpretar Bebel Gilberto. Marieta Severo está confirmada como Lucinha. E Antônio Fagundes e Pedro Paulo Rangel, vivendo respectivamente João Araújo e Ezequiel Neves, também estão praticamente certos. O cronograma dá a Daniel Oliveira pelo menos dois meses e meio para se preparar. "Não acho muito, mas é bastante comparado a outras produções nacionais", reconhece o ator. O fato de estar num projeto da Globo Filmes também facilitou bastante sua vida. "Ia fazer Esperança mas fui liberado para me dedicar só ao filme", conta ele, que perdeu a chance de se projetar numa novela das oito, mas não se importa. "Esse filme é a melhor coisa que eu faço agora. Estar na televisão costuma abrir portas. Mas fama não é minha ânsia, não. Ainda tenho muito caminho pela frente", diz.Para começar, Daniel foi à Sociedade Viva Cazuza, onde encontrou Lucinha pela primeira vez. "Foi aquela análise total, de olhar o outro de cima a baixo, duas pessoas se conhecendo mesmo. Mas ela tinha me visto nos testes e disse logo que também me escolheu. Assim, me deu confiança. Foi como se dissesse ´seja bem-vindo´", conta o ator. Foi Lucinha quem falou a Daniel das preferências literárias e musicais do filho. A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector, livro de cabeceira do cantor, já não sai mais de sua mochila. "Também já terminei Água Viva, que ele leu 128 vezes. Não vou chegar a tanto, mas é um livro que prende, dá vontade de reler mais quatro ou cinco vezes", diz Daniel. "Agora, depois de tanta pesquisa e leitura, conhecendo mais o Cazuza, me identifico com muitas coisas dele. Gosto do lado marginal que ele tinha. Ele gostava da vida. E eu também celebro a vida a cada instante."

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