Um retrato sensível da modernização da China

Alguma coisa de muito significativo deve estar acontecendo na China e o cinema é seu sintoma. Faz alguns anos, no começo da década de 1990, quando começaram a chegar ao Ocidente os filmes da nova onda chinesa, via-se que os diretores recorriam ao passado para falar do presente. Foi assim com alguns títulos maravilhosos e de grande sucesso em festivais como Lanternas Vermelhas e Amor e Sedução. Agora essa tendência mudou de direção. Um filme como Plataforma, de Jia Zhang Ke, não precisa recorrer a nenhum subterfúgio. Debruça-se sobre o tempo atual sem nenhuma cerimônia e refaz a história política do país através da percepção de um grupo de jovens. Assim, a ação de Plataforma situa-se nos anos 1980 e mostra como a herança do maoísmo vai se desvanecendo enquanto se intensifica o contato com a cultura ocidental. A passagem do tempo histórico se filtra através de uma trupe de artistas chamada Grupo de Cultura de Fenyang. O principal número do grupo chama-se Trem em Direção a Shaoshan, nome da terra natal de Mao-tsé Tung. O tempo passa e, depois da prisão da "gangue dos quatro", e a ascensão de Deng Xiao Ping, o grupo transforma-se em algo híbrido como o All Star Rock and Breakdance Band. Não é a primeira vez que o cinema focaliza a introdução de elementos ocidentais "decadentes" em sociedades socialistas que afrouxam seus controles. Por exemplo, no distante ano de 1980, um então desconhecido diretor iugoslavo chamado Emir Kusturica apresentava um filme estranho, Você se Lembra de Dolly Bell?, no qual um rockezinho meio fuleiro lembrava que o anseio de uma certa rebeldia jovem atravessava fronteiras. E se apropriava de restos um tanto desfigurados daquilo que se fazia no Ocidente, com maior profissionalismo e talvez mais apuro e qualidade. O rock era então esse esperanto da contestação, e chegava meio desfigurado na relativamente liberal Iugoslávia. Algo semelhante acontece em Plataforma. E não deixa de ser comovente ver aqueles garotos tentando reciclar padrões ocidentais em meio a sua carência material e com os limites impostos pela vigilância política. Porque, como se sabe, a abertura na nova China é bastante relativa, uma fresta na verdade. Jia Zhang tem muito a dizer através dos seus personagens. A cidadezinha de Fenyang é uma espécie de antena que capta, à distância, as grandes transformações que se processam no mundo fora dela. Tudo chega um tanto defasado e distorcido, à maneira das programações radiofônicas de longa distância, uma transmissão frágil, cheia de chiados e frases entrecortadas. As grandes mudanças se processam lá fora e os pequenos personagens as sofrem, na maior parte das vezes sem entender direito o que está acontecendo. É portanto um mundo de ecos, ou de sombras, como no mito da caverna de Platão. E, assim, as mudanças que levam o país de Mao-tsé Tung a Deng Xiao Ping chegam na forma de música pop, cabelos compridos, televisão, fim dos casamentos arranjados. Mas essas mudanças, que significam modernização de uma sociedade muito fechada, chegam com um tom de melancolia. É como se o diretor lamentasse que a maior abertura social viesse acompanhada do consumismo e da falta de solidariedade entre as pessoas. Não é o caso de dizer que não se pode ter tudo, nem de que os artistas nunca estão satisfeitos. Plataforma escava nessa questão humana da insatisfação que não se apazigua em regime nenhum. Não se trata, para o filme, de fazer uma comparação entre uma era e outra. Tudo o que lhe interessa é que, com todas as mudanças, ainda sobra um vácuo. Um vazio, como o de alguém que espera na Plataforma a passagem de um trem que o leve para longe dali sem que se saiba para onde vai. Essa é a poderosa metáfora do filme.

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