Um resgate da cultuada comédia 'Esse Mundo é dos Loucos'

Dirigida por Alan Bates, obra é uma delicada alegoria antiguerra

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2014 | 02h06

Bastariam Ainda Resta Uma Esperança, de John Schlesinger, e O Homem de Kiev, de John Frankenheimer, para garantir o lugar de Alan Bates no panteão dos grandes, mas o astro inglês fez também O Mensageiro do Amor, de Joseph Losey, e Esse Mundo É dos Loucos, de Philippe de Broca. O último acaba de ser lançado em DVD pela Versátil. Há quase 50 anos, Le Roi de Coeur/O Rei de Copas (título original) foi um grande êxito planetário. No Brasil, eternizou-se em cartaz, ficando meses em salas do Rio, de São Paulo e Porto Alegre, numa época (1966/67) em que a produção de Hollywood, sempre hegemônica no País, se instalava maciçamente nos cinemas brasileiros.

A história do filme tinha tudo a ver com preocupações daquele momento. Em 1962, a crise dos mísseis de Cuba levara o mundo à beira da 3.ª Guerra Mundial. A tensão entre as (então) superpotências - EUA e URSS - estimulava o armamentismo e as crises se sucediam. Em 1965, com as nuvens da guerra atômica toldando o horizonte, os EUA intensificaram seu envolvimento no Vietnã. Havia protestos nos EUA e, na Europa, proliferavam as células chinesas, o que Marco Bellocchio e Jean-Luc Godard refletiram em filmes que fizeram história, como A China Está Próxima e A Chinesa. Foi nesse quadro que De Broca produziu sua delicada alegoria antiguerra.

É verdade que ele adotou o formato de uma guerra que já era tradicional na época, a 1.ª, evitando envolver-se no vespeiro que já era a situação no Sudeste Asiático. A França, afinal, foi a potência colonizadora da Indochina e foi dos escombros do império colonial francês que surgiram os dois Vietnãs, em litígio. Na ficção de De Broca, o regimento de Alan Bates chega a uma pequena cidade do interior da França. Os habitantes, alarmados, fugiram, não sem antes abrir a porta do hospício. Quando Bates, que se chama Plumpick, se instala, os louquinhos mansos já tomaram conta do lugar. Num mundo ameaçado pela loucura da guerra, são eles os verdadeiros 'sensatos' - os racionais.

Tem gente que jura que Esse Mundo é dos Loucos, sendo de 1966, antecipou-se e ajudou a criar o slogan "Faça amor, não faça guerra", que virou o emblema da geração paz e amor. Foi em 1965, simultaneamente à escalada da Guerra do Vietnã, que surgiu pela primeira vez o termo hippie no artigo de um jornalista de São Francisco que refletia sobre mudanças comportamentais da juventude da época. Na trilha aberta pela beat generation, esses jovens adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de socialismo utópico e libertário. Nesse quadro, Plumpick abdica das armas para viver sua história de amor com Coquelicot, a doce Geneviève Bujold, que De Broca veste com a roupa da trapezista de O Circo, de Charles Chaplin, que também era o (inatingível) objeto de desejo de Carlitos.

Decorrido todo esse tempo, é bom verificar que o impacto da cena final de Esse Mundo É dos Loucos permanece inalterado. Talvez seja bom você saltar o parágrafo, se não conhece o filme (e não quer estragar sua capacidade de maravilhamento). Mas com certeza contribuiu para a aura do filme o desfecho em que o soldado, nu - e carregando a gaiola com o pássaro -, bate à porta da casa de loucos, pedindo permissão para entrar. No mundo que voltou ao "normal", os loucos precisam ser apartados e alienados de novo. E Bates não quer fazer parte dessa (des)ordem.

Philippe de Broca foi um caso raro no cinema francês dos anos 1960, e não apenas porque, tendo sido assistente de Henri Décoin, Claude Chabrol e François Truffaut, ele fez a passagem do cinema "de regras fixas" para a nouvelle vague. O movimento que triunfava na França não fez do humor seu cartão de visitas. Pelo contrário. Com a nova onda, o cinema francês dava as impressão de haver perdido o gosto pelo riso, e foi aí que entrou De Broca. Em Brincando de Amor e O Gozador, ambos com seu ator fetiche, Jean Pierre Cassel, ele ensinou que a comédia era compatível com o novo cinema. Seu terceiro longa, de 1961, é uma obra-prima.

O Amante de Cinco Dias, de novo com Jean-Pierre Cassel, mostra esse gozador que já tem uma amante (Micheline Presle), mas se envolve com uma mulher casada (Jean Seberg). É um dos momentos mais belos e simbólicos do cinema francês e mundial da época. Havia um desprezo pela figura do "papai" - como crítico, Truffaut fustigara o que, pejorativamente, chamada de cinema de "papai". No filme de De Broca, Seberg, a Patriciá de Jean-Luc Godard em Acossado é casada com François Périer. Ele pressente que ela tem um amante. Imagina que esteja com ele, e cuida do filho enquanto a mulher está fora. O garoto pergunta: "Onde está mamãe?" Papai responde que está demorando por causa do salto alto, que a impede de voltar correndo para casa para cuidar do seu bebê.

A lendária crítica Pauline Kael sempre considerou esse diálogo um dos mais belos do cinema. Não se enganava. De Broca virou diretor de aventuras, com filmes formatados para Jean-Paul Belmondo - Cartouche, O Homem do Rio, As Fabulosas Aventuras de Um Playboy, O Magnífico etc. Eram bons, mas O Amante de Cinco Dias e Esse Mundo É dos Loucos são muito melhores. O último espelha um estado de espírito, um comportamento libertário próprio dos anos 1960. Rever o filme é um pouco como viajar no tempo para encontrar a gênese da contracultura. O próprio Milos Forman bebeu nessa fonte para fazer O Estranho no Ninho.

ESSE MUNDO É DOS LOUCOS

Diretor: Philippe De Broca

Elenco: Alan Bates, Geneviève Bujold

Distribuidora: Versátil; R$ 39,90

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