Filippo Monteforte / AFP
Filippo Monteforte / AFP

'Um país sem artistas', lamenta cineasta afegã em depoimento no Festival de Veneza

Sahraa Karimi falou para outros cineastas e jornalistas, algumas semanas após tomada do poder no Afeganistão pelo Taleban

AFP, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 16h03

Com um depoimento comovente, duas jovens cineastas afegãs imploraram solidariedade, neste sábado, 4, no Festival de Veneza, ao abordar a dramática situação cultural no Afeganistão, após a tomada do poder pelo Taleban, que poderá, literalmente, deixar o país sem artistas.

"Em apenas duas semanas, as figuras mais brilhantes do país partiram", disse Sahraa Karimi, 38, a primeira mulher a chefiar a Organização de Cinema do Afeganistão.

"Imagine, um país sem artistas!", lamentou a cineasta diante de um grupo de jornalistas e cineastas, entre eles o diretor do festival, Alberto Barbera.

"Os talebans estão destruindo os instrumentos de música, os estudantes se escondem (...) Por favor, sejam nossas vozes e falem da nossa situação", pediu, por sua vez, a cineasta Sahra Mani, diretora do documentário A thousand girls like me (2018), sobre uma mulher violentada pelo pai durante anos.

Karimi descreveu uma imagem sombria: "Tudo parou no espaço de algumas horas. Os arquivos estão sob o controle do Taleban. O trabalho dos diretores desapareceu", relatou ela.

"Pela primeira vez na história do cinema afegão, um filme foi convidado para o festival francês de Cannes. Estávamos planejando adaptar 11 curtas-metragens sobre histórias afegãs. Estávamos preparando a segunda edição do prêmio nacional de cinema", afirmou. 

A cineasta disse que, no domingo, 15 de agosto, teve de abandonar seus projetos e deixar seu país para trás em poucas horas.

"Foi a decisão mais difícil da minha vida: ficar, ou sair do meu país", confessou. 

"Não temos mais casa, não temos país (...) a Arte é proibida. Minha geração não quer isso", afirmou Karimi, lançando um pedido de ajuda à comunidade internacional.

"Pedimos ajuda! Precisamos de esperança. Aqueles que ficaram no Afeganistão apagaram suas contas nas redes sociais", completou.  

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