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'Um Novo Caminho' traz outro olhar sobre alcoolismo

Filme é menos sobre um dependente do que sobre um homem que reaprende a se comunicar

Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio,

30 Julho 2010 | 06h00

Em janeiro, o repórter do Estado havia se encontrado, em Paris, com o diretor Philippe Godeau e o ator François Cluzet, durante o Rendez-Vous du Cinéma Français, promovido pela Unifrance. Depois, Godeau veio ao Brasil, durante o Festival Varilux, justamente para mostrar sua estreia como diretor, no filme estrelado por Cluzet. Godeau tem décadas de estrada, mas até aqui era produtor - de filmes autorais, como os de Jaco Van Dormael, ou de ‘mercado’, como a série Largo Winch, com o personagem dos comics. O primeiro Largo Winch saiu em DVD no País. O segundo está em produção, atualmente.

 

O filme de Godeau e Cluzet chama-se Le Dernier Pour la Route, no original. No Brasil, virou Um Novo Caminho. É o que tenta trilhar o personagem de Cluzet. Logo na abertura, ele está saindo de casa. Parece que está indo embora - um divórcio? -, mas na verdade é um alcoólatra que está se internando para se desintoxicar.

 

O cinema contou muitas histórias de alcoólatras desde que Farrapo Humano, de Billy Wilder, com Ray Milland, ganhou os principais Oscars de 1945. Godeau e Cluzet basearam-se num livro de Hervé Chabalier. "Estava muito feliz nas minhas funções de produtor e distribuidor. Não pensava em dirigir, nunca foi um desejo. Quando comprei o livro de Hervé, tentei vários diretores, mas eles tinham visões muito diferentes da minha. Enquanto isso, participava do roteiro e nunca me envolvi tanto com a escrita. François (Cluzet) começou a dizer que eu devia dirigir e resolvi ousar. Foi uma das melhores experiências da minha vida."

 

 

 

 

O que essa história de um dependente do álcool tem de diferente? "Não é a clássica história de recuperação. Philippe investiga a tristeza de meu personagem, que tem origem na morte da irmã, que ele provoca, indiretamente. A clínica não é um porto seguro e, no final, ele não tem certeza de nada. Nem de estar recuperado", diz Cluzet. "A discussão sobre a linguagem é rica e é diferente. Um Novo Caminho é menos sobre um dependente do que sobre um homem que reaprende a se comunicar. Neste sentido, todas as etapas da construção do personagem foram valiosas. É um dos meus trabalhos mais sólidos", diz o ator de O Ciúme, o Inferno do Amor Possessivo, de Claude Chabrol. (Luiz Carlos Merten)

Alcoolismo visto sob tom sóbrio

 

Um Novo Caminho foi a "tradução" encontrada no Brasil para Le Dernier pour la Route, filme de Philippe Godeau. Poderia, sem prejuízo, ser vertido para algo como "A Saideira", não fosse o empenho moralizante com frequência embutido na temática do alcoolismo. E isso, diga-se, num filme bastante límpido, que trata o problema do álcool sem qualquer viés moral, e o vê como um problema de dependência química e psicológica. Sobretudo como algo ligado à disfunção afetiva, como comprova a história de Hervé (François Cluzet) que tem tudo para ser feliz, mas destrói-se pela bebedeira contumaz.

Internado, ele irá conhecer uma mocinha problemática, bem mais jovem e complicada do que ele. O filme mostra o tratamento e os dramas pessoais em tom documental, bem despojado e isento. Nem por isso é menos envolvente. Beneficia-se da mão segura do diretor e, sem que isso pareça contraditório com o tema, a sobriedade de François Cluzet, ator de muitos recursos expressivos, que utiliza com economia. (Luiz Zanin Oricchio)

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