Lacey Terrell/TriStar Pictures
Lacey Terrell/TriStar Pictures

‘Um Lindo Dia na Vizinhança’ é filme sobre bondade com um Tom Hanks genial

No longa-metragem dirigido por Marielle Heller, em cartaz no Brasil, ator é apresentador de TV que decide ajudar jornalista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de janeiro de 2020 | 08h00

Tom Hanks tem sido indicado para melhor ator coadjuvante em todas as premiações do ano pelo filme Um Lindo Dia na Vizinhança, já em cartaz no Brasil - Globo de Ouro, Critic’s Choice, SAG Award, Oscar, mas é a vez de Brad Pitt e ninguém vai tirar o Academy Award de seu Cliff, de Era Uma Vez Em Hollywood, de Quentin Tarantino. Para a América comemorar e ficar feliz só falta Brad reconciliar-se com Jennifer Aniston, como apostam as revistas de fofocas, depois que ambos trocaram beijinhos no tapete vermelho de uma festa, mas essa, como diria Billy Wilder, é outra história. Como Meryl Streep, Tom Hanks é uma unanimidade na cena cinematográfica dos EUA. Concorre, como coadjuvante, no prêmio que já ganhou duas vezes como melhor ator nos anos 1990, por Filadélfia e Forrest Gump - O Contador de Histórias. O público, os críticos, os produtores, os diretores, todos o adoram e respeitam pelo talento e profissionalismo.

Hanks, de 63 anos, é casado há mais de 30 - desde 1988 - com Rita Wilson, apoia as boas causas (do meio ambiente ao combate à diabete), possui um patrimônio declarado de US$ 390 milhões - amealhado com o cinema e a TV -, é um exemplo de sucesso e cidadania. Em Um Lindo Dia na Vizinhança, a diretora Marielle Heller faz o que só é possível ousar quando se dispõe de uma persona tão carismática e sedutora. Hanks faz o apresentador de um programa infantil na TV, Mr. Rogers. É ídolo das crianças, e seus pais, que também já foram crianças. Na trama, um escritor e jornalista irascível, Lloyd Vogel, é contratado para traçar seu perfil. Matthew Rhys é quem faz o papel. Tornou-se pai recentemente, e tem problemas - sempre teve - com o próprio pai. Com perspicácia, Mr. Rogers percebe isso imediatamente. E resolve ajudar Vogel.

Para início de conversa, inverte a relação e passa de entrevistado a entrevistador, o que incomoda o protagonista. Sua mulher lhe pede - “Por favor, não estrague minhas lembranças de infância” -, porque ela também foi formada/informada vendo Mr. Rogers na TV. O personagem é real e o filme inspira-se num perfil de Mr. Rogers na revista Esquire. E o que um diretor, ou diretora, pode fazer só quando dispõe de um ator como Tom Hanks está em duas cenas - na verdade, a mesma. Mr. Rogers propõe a Vogel um minuto de silêncio “por nossos amores”. Um minuto de silêncio vira uma eternidade. Como se isso não bastasse, a diretora Marielle Heller faz com que Hanks olhe fixamente para a câmera, sem nem sequer piscar. Hanks apenas olha. Docemente, placidamente. Como Greta Garbo, no célebre plano final de Rainha Cristina, de Rouben Mamoulian, de 1933, não expressa nada. O espectador fica livre para imaginar... Tudo!

Embutido no personagem de Mr. Rogers está um fenômeno contemporâneo - a questão da autoajuda. Você entra numa livraria e, na estante dos mais vendidos, encontra uma infinidade de livros que ajudam a ser uma pessoa melhor, a viver melhor. Apesar do sucesso da tendência, pode-se argumentar cinicamente que é um fracasso. Nunca as pessoas foram tão individualistas, egoístas, narcisistas - violentas. Mas os gurus da autoajuda vão bem, obrigado. Não dizem nada que não seja o senso comum. Mr. Rogers é um compêndio das banalidades que as pessoas querem ouvir para se sentir melhor.

Para cinéfilos, é difícil, praticamente impossível, assistir a Um Lindo Dia na Vizinhança sem se lembrar de um filme cult dos anos 1970 - Muito Além do Jardim/Being There, de Hal Ashby, em que Peter Sellers está genial como Chance, o jardineiro que viveu isolado, só assistindo a TV. Quando transpõe o limite do seu jardim, e à custa de repetir frases feitas, baseadas no senso comum - nenhuma grande revelação -, torna-se conselheiro do presidente dos EUA. Marielle, no fundo, talvez esteja querendo refletir sobre a maioria silenciosa que elegeu Donald Trump presidente dos EUA. Não é um filme para todos os gostos - o partido estético tem algo de faz de conta, com cores exageradas e ambientes estilizados -, mas, nesse sentido, pode se tornar bem interessante.

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