Um grande Bergman, puro como água

Há uma atriz prodigiosa chamada Pernilla Allwin em Fanny & Alexander. O clássico de Ingmar Bergman, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e mais três prêmios para a melhor fotografia (de Sven Nykvist), melhor direção de arte e melhores figurinos, é de 1983. Antes do fim daquela década, Pernilla casou-se com o diretor dinamarquês Bille August e incorporou o sobrenome do marido. Virou Pernilla August, nunca menos do que uma atriz admirável.Já era assim em Fanny & Alexander. O filme de Bergman está sendo lançado pela Versátil em disco digital com tudo a que o espectador tem direito. Além das tradicionais seleções de cenas e legendas, tem um monte de extras - curiosidades, filmografias, prêmios. A Versátil ainda tem de melhorar na qualidade das legendas, mas seus lançamentos em DVD são produtos diferenciados, como, aliás, se espera que sejam sempre os discos digitais.Decorridos quase 20 anos, Fanny & Alexander já foi lançado em vídeo e passou na televisão e nos cinemas tantas vezes que só não viu quem não quis. Não importa. Se você é cinéfilo e já tem DVD, com certeza está formando sua deveteca. Um filme como esse tem de ter lugar destacado nela.Começa como uma festa de família. A época é o Natal, o ano 1907. Uma família de Upsala, a cidade onde Bergman nasceu, reúne-se para comemorar a data. Tudo é suntuoso - as imagens, as roupas, os pratos que compõem o banquete. E tudo é visto pelos olhos de duas crianças, Fanny e Alexander. Há uma morte, e o fantasma insiste em vagar pelos corredores da casa. Após a morte do pai, a mãe de Fanny e Alexander casa-se com um pastor religioso. Ele submete a família à mais dura repressão religiosa mas o filme não termina sem que as crianças se libertem - por meio da arte.É um raro e grande filme, uma súmula de todos os temas, obsessões e desvarios que transformaram o sueco Bergman num dos maiores pensadores do cinema. Ele fez Fanny & Alexander como minissérie de TV, depois remontou o filme, reduzindo-o para passar nos cinemas. O resultado não é só uma festa para os olhos e ouvidos. O próprio Bergman, disse certa vez, sobre Mouchette, a Virgem Possuída, de Robert Bresson, que era um filme "puro como água". O dele também é puro como água, o ápice de um artista em pleno domínio do seu meio de expressão.Depois de Fanny & Alexander, ele decidiu parar com o cinema. Ainda fez alguns filmes (para TV) e forneceu roteiros para que a ex-mulher Liv Ullman e o filho Daniel mantivessem vivas suas idéias. Diante desse filme, vale destacar a frase escrita sobre o palco do teatro de marionetes que aparece em cena. "Não apenas diversão." Com Bergman, nesse filme, o cinema também é mais que diversão. É arte e um poderoso instrumento de investigação da complexidade humana. Fanny & Alexander (Fanny & Alexander) - Suécia, 1983. Direção de Ingmar Bergman. Colorido, 197 min. Versátil. À venda por R$ 33, preço médio.

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