Um filme que não tem nada de "Queridinha"

Queridinha, que estréia hoje, é uma variante do tema do estranho que vem desarranjar uma situação estabelecida. Neste filme, de Anne Villacèque, a variante adquire a tonalidade de uma trama de suspenseA história se passa na Normandia. Sybille é uma trintona meio travada, que vive com os pais numa casa de classe média do subúrbio de Orleans. Um dia conhece no trem o jovem Victor. Apaixona-se por ele, leva-o para dentro de casa, quer casar-se com o rapaz. Brincando, ma non troppo, um dia ele diz: "Victor rima com predator", predador em francês. Ela não acredita. Deveria. Nesse tipo de história, o que vale é o clima. Você tem de ir acreditando na trama à medida que ela se desenrola. No caso de Queridinha, pode-se dizer que o filme não se torna arrepiante, mas se não provoca aquele frio na espinha pelo menos causa um certo incômodo no espectador. Um incômodo agradável, daqueles que se vai buscar no cinema. E esse incômodo vem de uma certa identificação possível com a família de Sybille. O espectador pode ver-se neles, embora divirja deles. E pode compartilhar aquela sensação horrível de que nem sempre as boas intenções conduzem aos melhores resultados. A idéia interessante por trás do filme (quer dizer, o conceito que o orienta) sustenta que esse universo burguês é sufocante em si, independentemente do caráter das pessoas que o habitam. A forma prevalece sobre o conteúdo. Ou melhor, a forma determina o conteúdo.

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