Cena de 'Ana Arabia'
Cena de 'Ana Arabia'

Um espaço para a tolerância de todos

Amos Gitai comenta seu ‘Ana Arábia’, mistura arquitetura e cinema e define o que é, afinal, o ideal de arte e mundo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2013 | 19h23

Amos Gitai esteve no começo da semana na Mostra, apresentando seu filme Ana Arabia e debatendo-o com o público. Na quarta, foi a Porto Alegre, num bate e volta, a convite do governador Tarso Genro, para discutir um projeto, sobre o qual desconversa. Na quinta, ele volta a São Paulo para o encerramento da 37.ª Mostra – o júri internacional outorga o Troféu Bandeira Paulista à noite, no Cinesesc – e na sexta retorna a Paris. Esse é o ritmo de Gitai.

É um cidadão do mundo. Filho de arquiteto, ele próprio Ph.D. em Arquitetura pela Berkeley, Gitai descobriu que sua vocação é o cinema, mas é o primeiro a reconhecer que o uso do espaço lhe deu ferramentas muito importantes. Em cerca de 40 anos de carreira – fez 63 anos em 11 de outubro –, já fez mais de 90 filmes e instalações. Não contabiliza sua obra, mas vai ter de contar. Vivendo entre Haifa e Paris, Gitai ganha neste final de ano uma retrospectiva completa no Museu Reina Sofia, em Madri. Depois, em fevereiro – após o Festival de Berlim e até Cannes, ele relaciona a duração do evento aos grandes festivais de cinema –, haverá outra retrospectiva em Paris.

Ele se sente em casa, na Mostra. Fala com carinho de Leon Cakoff, de Renata Almeida. Concorda com o repórter, que considera Ana Arabia seu melhor filme em anos, talvez desde Kedma, em 2002. Embora nunca tenha parado com elas, Gitai retoma com força as pesquisas estéticas e faz o filme todo num único plano-sequência de 81 minutos. Mas os personagens são tão fortes que o espectador nem se dá conta do virtuosismo do processo (e da câmera). “É o maior elogio que me fazem. Fiz o filme desse jeito, mas ficaria decepcionado se as pessoas só me falassem da estética de Ana Arabia. Fiz desse jeito porque era a melhor maneira de contar essa história, não para chamar a atenção para a técnica.”

E o curioso é que Ana Arabia nasceu meio a contragosto do autor. Sua roteirista, a francesa Marie-Jose Sanselme, falava-lhe dessa mulher extraordinária, dizia que daria um belo filme e que Gitai deveria conhecê-la. Ele relutava – de novo as tensões entre israelenses e palestinos. “Nãããoooo.” Mas aí ouviu as histórias, conheceu o entorno e se apaixonou. “Tenho trabalhado com documentário e ficção nos últimos 30 anos ou mais, e são esses fragmentos de histórias que me me interessam. Sou um colecionador das contradições humanas e sociais e, muitas vezes, tenho a impressão de que a região (o Oriente Médio) mergulha numa selvageria tão forte que é preciso questionar, indagar. Minha ferramenta é o cinema e eu só posso fazer isso por meio dos filmes.”

Convencido de que o cinema tem de andar com os próprios pés, Gitai preocupa-se com o conteúdo, mas também com a forma, que, para ele, tem de evitar o didatismo. O verdadeiro criador, e é o que aspira, tem de se ocupar da narrativa, propondo um sentido para o que está fazendo, mas só o sentido não basta. “O cinema tem uma linguagem que é preciso explorar e desenvolver. Posso misturar linguagens e gêneros, mas o desafio é estar sempre à frente, harmonizando forma e conteúdo.” Essas lições de harmonia – para pegar carona no título de um filme do Casaquistão pré-selecionado pelo público para concorrer ao Troféu Bandeira Paulista – não precisam ser necessariamente palatáveis.

“Um filme é o que é”, Gitai gosta de dizer, e ele tem conseguido financiamento para fazer o que quer, como quer. Jeanne Moreau, “a atriz mais inteligente que conheço”, e Juliette Binoche, “a mais humana”, atendem a seu chamado, e isso serve de atrativo para os produtores e o público. Da mesma forma, embora seja visceralmente crítico com as políticas de Israel em relação aos palestinos, o governo da vez não mexe com ele, que tem o respaldo da sua projeção artística em todo o mundo. E se o pai arquiteto foi uma referência – e Gitai já fez um filme sobre ele, além de ter escrito uma elegia (Lullaby for My Father) –, a mãe não foi menos decisiva.

Aristocrata e progressista, aproximou o jovem Amos dos trabalhistas israelenses. Depois, quando os pais foram para o exterior – a mãe ficou um tempo em Londres –, Gitai foi para um kibutz. A experiência foi decisiva em sua formação, esse contato com o outro que abriu seus olhos e o transformou no cidadão do mundo que é. Filmar Ana Arabia num plano sequência envolveu muita preparação (e logística). “Tivemos de filmar mais de uma vez, mas não muitas. Já havia feito filmes com cenas em plano-sequência, mas, desta vez, é todo o conceito, todo o processo. Dei-me conta de que ia precisar do ‘one shot’ para criar o ritmo necessário a esta história, mas considero um cumprimento quando as pessoas nem percebem. É sinal de que a técnica não prevaleceu.” A locação na região fronteiriça entre Jaffa e Bat Yam foi decisiva. É um raro enclave em que árabes e judeus conseguem viver. Como arquiteto, Gitai sabe que construir um espaço não é só design. “É preciso criar um espaço agradável para o convívio social e no qual as pessoas possam viver. Meu ideal de mundo é meu ideal de arquitetura e cinema – um espaço de tolerância para todos.”

ANA ARABIA

Cinusp. Hoje, 19h

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