Um "Elefante" que incomoda a América

Você vai chegar no fim de Elefante perguntando-se por que o filme de Gus Van Sant, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado (e que estréia hoje na cidade), tem esse título. Não há elefantes na história, nem mesmo ao fundo, nas cenas. Elefante é a versão de ficção do mesmo episódio real que inspirou o polêmico documentário de Michael Moore, Tiros em Columbine. Por que a sociedade americana é tão violenta? Por que só consegue resolver seus problemas por meio de tiros e porretadas? No filme de Gus Van Sant, estudantes de uma escola saem disparando nos colegas e professores. O que isso tem a ver com Elefante? O título é uma homenagem ao diretor Alan Clarke, que fez um filme homônimo sobre a violência religiosa na Irlanda. Nele se conta, como uma parábola, a história do cego que quer saber o que é um elefante. Trazem o bicho e o cego esquadrinha o animal com as mãos, tentando desvendar, por meio do tato, o segredo da sua forma. Mas o rabo, a tromba, tudo o confunde e ele não consegue totalizar uma idéia. A soma das pequenas partes não lhe permite resolver o enigma. Assim também o cinema age como cego quando se debruça a analisar a violência, por prender-se ao detalhe em vez de contextualizar e fazer uma crítica mais abrangente. É o que se propõe Gus Van Sant. Um filme como Elefante oferece muitas surpresas. A primeira e maior delas é ver o diretor voltar à sua melhor forma. Diretor de obras importantes por volta de 1990, como Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, ele seguiu depois uma trajetória irregular. A um bom filme, como Um Sonho sem Limites, seguiu-se o remake clonado de Psicose - uma vergonha em qualquer currículo - e dois filmes que não eram propriamente ruins, mas cuja dramaturgia era tradicional demais e, por isso, decepcionavam (Gênio Indomável e Procurando Forrester). Com Elefante, Vant Sant une à alta voltagem do tema uma pesquisa de linguagem que faz de seu filme uma obra ainda mais impactante. E não é linear nem definitivo - cabe ao espectador juntar os pedaços para obter a configuração total do Elefante. Outra surpresa é encontrar o nome de Diane Keaton como produtora de Elefante. Curiosidades e surpresas à parte, um filme como Elefante inscreve-se e dá consistência ao que é hoje uma tendência do cinema americano, que consiste em olhar para o subúrbio em busca de compreensão dos impasses e problemas da América. A periferia americana, aquilo que lá se chama de suburbia, tem uma conotação diversa do Brasil. Aqui, o conceito de periferia ou subúrbio é associado às camadas de excluídos ou, pelo menos, àqueles que estão na base da pirâmide social. Nos EUA, é o oposto e a suburbia é onde vive a América endinheirada. São aquelas casas em que tudo parece perfeito. Antigamente, Hollywood vendia a idéia de que aquele era o melhor dos mundos, o mais perfeito. Nos últimos anos, os filmes têm contestado cada vez mais essa idéia. De Veludo Azul, de David Lynch, até Elefante, pode-se traçar um arco que certamente vai incluir filmes perturbadores como Beleza Americana, de Sam Mendes - que nem é bom, apesar de ter ganhado o Oscar -, e As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola. Um documentário como Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, participa desse movimento. De perto, ninguém é normal. Por trás de uma aparência de calma e tranqüilidade, há um mundo em ebulição. Elefante se atraca com o bicho para revelar a derrocada moral da América como uma sociedade enferma. Diane Keaton tem razão - filmes como esse, independentemente de qualidade, são necessários. Elefante ainda é melhor porque é cinema de alta qualidade. Como Gus Van Sant há tempos nos desacostumara de ver.

Agencia Estado,

02 de abril de 2004 | 14h08

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