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Um dos grandes filmes do ano, estreia nos cinemas 'A Hora e a Vez de Augusto Matraga'

O ator João Miguel destaca-se na produção do diretor Vinicius Coimbra baseada na obra do escritor João Guimarães Rosa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2015 | 03h00

É um dos grandes filmes da história do cinema brasileiro, não apenas do ano. E foi um longo caminho até que A Hora e a Vez de Augusto Matraga, a versão de Vinicius Coimbra, quebrasse o encantamento para chegar, enfim, aos cinemas nesta quinta-feira, 24. Vai ser um lançamento pequeno para a grandeza do filme – apenas 20 salas de São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Salvador. O desejo de verter para a tela a prosódia rosiana – o universo telúrico de João Guimarães Rosa – perseguiu o diretor Coimbra durante anos.

Matraga não foi sua primeira escolha. Ele queria Campo Geral. Quando procurou Flávio Tambellini para expor sua proposta, o produtor lhe fez saber que acabara de assinar com Sandra Kogut, e ela fez Mutum. Coimbra não desistiu. Voltou-se para A Hora e a Vez de Augusto Matraga. E não se intimidou com o fato de o conto já ter sido filmado por Roberto Santos, em 1965, e o filme anterior tem fama de clássico do Cinema Novo. “Escolhi o conto, não quis refazer o filme. Inclusive, antes de ser restaurado, Matraga havia sumido do mapa. Eu mesmo tive de mover céus e terra para conseguir ver o filme, e, quando vi, descobri que nossos focos (de Santos e dele) eram bem distintos. Não havia motivo para que não fizesse a minha versão.”

Matraga estreou na Première Brasil do Festival do Rio de 2011. Ganhou o Redentor nas categorias de filme, direção, ator (João Miguel) e ator coadjuvante (José Wilker), mais um prêmio especial do júri para Chico Anísio. A princípio seria um grande lançamento (da Nossa Distribuidora), mas um imbróglio da Ancine cortou a verba (e a estreia). No intervalo, Coimbra fez um Shakespeare no teatro (Como a Gente Gosta) e outro no cinema (A Floresta Que se Move, baseado em Macbeth). O Macbeth de Coimbra estreia em 5 de novembro. Surgiu a janela para lançar, mesmo pequeno, Matraga. Prepare-se. João Miguel, que não tem o physique du rôle, assume o personagem como um possesso. 

Vinicius Coimbra ouve atentamente o repórter. Em 1965, quando Roberto Santos fez sua adaptação de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o Cinema Novo ditava as regras no cinema brasileiro. Internacionalmente, ainda era recente o impacto produzido por Yojimbo, clássico de espada de Akira Kurosawa que inspirou Sergio Leone a fazer Por Um Punhado de Dólares. Foi o filme que deu respeitabilidade ao spaghetti western. Kurosawa utilizou a lente zoom, que achatava o fundo da imagem e dava uma espécie de balanço à movimentação de seu ator, Toshiro Mifune. Roberto Santos fez a mesma coisa com seu Matraga, e seu ator, Leonardo Villar.

Coimbra admite que o cinema japonês é sua grande referência. Kurosawa e, o que pode parecer surpreendente, Yasujiro Ozu, o mestre zen do minimalismo. Santos seria o Kurosawa neorrealista. Coimbra é o épico. Mais que isso – o mítico. Mas atenção – “Matraga não é um personagem monolítico. Podem-se fazer várias leituras dele, cada um pode vê-lo escolhendo o ângulo que mais o sensibiliza. Posso ser atraído pelo mito, mas investi menos em Matraga como fenômeno social.” Dessa maneira, ele acredita estar sendo fiel a Guimarães Rosa. “Parece incrível quando a gente pensa que, para o muito e grandioso que escreveu sobre o sertão, Rosa o tenha conhecido tão pouco. Ele fez uma viagem preparatória que durou algumas semanas, mas se impregnou. E, a partir daí, se libertou para criar. Fundou um sertão fabulário e mitológico, com personagens maiores que a vida e palavras que ia inventando.”

Era esse o desafio de Coimbra e de sua corroteirista, Manuela Dias (ela também escreveu com ele A Floresta Que Se Move). Reinventar Matraga para o público do século 21. “É um crime que um personagem desses e um filme como o de Roberto Santos não impregnem o imaginário do brasileiro.” Dar corpo, dar voz, dar paisagem a Matraga. “Filmes com conteúdo artístico não precisam abrir mão da comunicação com o público”, alerta o diretor. O curioso é que antes de Nhô Augusto, ele queria filmar Campo Geral, que virou filme de Sandra Kogut, Mutum – com João Miguel. “O João não tem physique du rôle, não corresponde à descrição que Rosa faz do personagem. Mas eu o queria porque Matraga, que não é homem, não é nada, como escreve Rosa, é um bruto que se quebra sem se vergar, como a espada do samurai. Matraga se revelou para mim, como um homem fragmentado, cheio de fendas emocionais. É um produto do sertão de Minas, e a paisagem é muito importante na definição do personagem, mas acredito que também existem Matragas no asfalto de São Paulo e do Rio. E isso o João me dava. O que precisei foi fazê-lo crescer. Quem conseguiu isso foi um mestre butô, Tadashi Endo. Ele veio da Alemanha para fazer a preparação de João Miguel. Ficou uma semana com a gente em Diamantina. Foi a primeira vez que utilizou o butô para preparar um ator para um papel, num filme. E conseguiu.”

Há, na essência da história de Augusto Matraga, uma fábula de superação. De cara, ele é mostrado como um homem violento e vicioso que, encurralado, dá um salto no vazio (após ser marcado como gado). A experiência da quase morte o faz renascer. Alertado pelo padre, toma consciência e foge da tentação. Seu mantra é – “Pro céu eu vou nem que seja a porrete.” O resgate do cavalo, sua doma, é fundamental no processo de resgate do próprio Matraga. Mas o passado o persegue, e o encontro com Joãozinho Bem-Bem deflagra o velho conflito entre bem e mal. Ao enfrentar o outro, Matraga vai tentar extirpar nele o mal que ameaça se reapossar dele mesmo. Só que seria injusto ver nisso apenas uma releitura de Rosa à luz do gênero. “O que me interessa é a tragédia dentro da aventura”, define o diretor. “Matraga é um personagem muito masculino, com dilemas que são os do guerreiro. Honra, coragem, dever. Ao mesmo tempo, relaciona-se com a religião e a morte. Creio que o Rosa me ajudou muito no processo. Quanto mais me apropriei de seus diálogos, de seu linguajar, mais o personagem cresceu e ficou verdadeiro.”

Para essa apropriação, Coimbra revela não ter se fixado só em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o conto de Sagarana. “Fiz um acordo com a família e comprei também diálogos e descrições de Grande Sertão que me pareciam essenciais para dar mais força ao que pretendia fazer.” Como o repórter notou algo diferente no filme – em relação ao que venceu no Rio –, ele termina por admitir. “Baixei o volume da música e aumentei o dos diálogos.”

Matraga ganhou com isso. Estão se completando quatro anos desde a premiação do filme no Festival do Rio de 2011. Basicamente, foi a falta de verba que segurou o lançamento. É ainda a falta de verba que limita a estreia a 20 salas, apenas. O Macbeth – A Floresta Que Se Move – que Coimbra lança em 5 de novembro será maior. Cem salas. Coimbra não se queixa das regras do mercado, que hoje privilegiam as comédias. Emendar um Guimarães Rosa com um Shakespeare não é só ambicioso, como projeto artístico. É arriscado. “Mas eu acredito nos filmes. Acredito no Matraga, no Floresta. Tem gente que acha que a gente só sabe fazer comédia, mas eu acho que quem for ver Matraga vai ter uma surpresa. Porque o filme é esteticamente belo e dinâmico. Tem interpretações geniais. Nosso desafio é tirar o público de casa para que as pessoas descubram isso.”

ENTREVISTA: João Miguel, ator

João Miguel está feliz da vida com seu Augusto Matraga. E como o teatro segue sendo seu primeiro amor, fica mais contente ainda com a novidade que anuncia para o repórter.

Foi intimidador assumir o personagem que Leonardo Villar criou tão bem no filme de 1965?

Sempre amei Guimarães Rosa e o Matraga em particular. É um personagem que sempre mexeu comigo. O filme do Roberto Santos é um clássico, Leonardo e Jofre Soares batem um bolão, mas tivemos muito tempo para nos preparar, Vinicius (o diretor Coimbra) e eu. Conversamos uns dois anos sobre o que seria nossa versão. E seria, como é, diferente.

Como foi ser preparado por um mestre de butô?

Tadashi fez um trabalho sensacional. O Vinicius diz que eu tinha de crescer fisicamente para ser o personagem. Mas não é só uma coisa de físico. É de dentro, também. Mexe com o corpo e a alma. Trabalhamos durante uma semana, Endo e eu. Não sei nem como explicar, mas foi uma coisa muito forte. Há uma concisão muito grande no Rosa. Quando cheguei ao set já dominava a complexidade do Matraga, que não é homem, não é nada, como diz o Rosa.

Você tem feito muito cinema. E o teatro, sua paixão?

Estou voltando. Reestreio em dezembro, na Igreja da Barroquinha, em Salvador, o espetáculo sobre Bispo do Rosário. Estou fazendo com um coletivo muito bacana. O Bispo vai renascer renovado, estou muito entusiasmado.

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