Um documentário à altura do seu personagem

Longa revela as diversas facetas deste que talvez seja o mais poderoso artista da cinematografia contemporânea

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 03h00

O documentário Jia Zhangke - Um Homem de Fenyang não tem esse nome por acaso. Seu diretor, Walter Salles, sabia que precisava ir à região onde nasceu e cresceu o cineasta chinês, responsável por algumas obras-primas do cinema contemporâneo como Plataforma e Em Busca da Vida. Motivo principal: a forte ligação de Jia com sua terra natal, seus amigos, família, companheiros de escola. 

O longa, filmado em Fenyang, mas também em outros lugares da China, como Pequim, Pingayo, Nan-che e outras cidades e vilarejos da região de Shanxi, revela em Jia cronista da radical transformação por que passa a sociedade chinesa, da economia planificada ao dogmatismo do mercado. Mudanças que, se levaram a China ao protagonismo da cena econômica mundial, sujeitaram a população a uma perda crescente de identidade. 

Não por acaso, também, Jia é cineasta consagrado no exterior e proscrito em seu país. Uma das cenas dramáticas do longa mostra quando o cineasta recebe a notícia de que seu longa de ficção mais recente, o estudo sobre a violência Um Toque de Pecado, fora proibido na China. Nesse momento, Jia diz aos amigos que está prestes a tomar uma decisão radical, a de não mais filmar. 

Em outros momentos, o pesar pela censura é temperado pelo humor. Jia conta que ficou feliz ao ser abordado por um ambulante lhe oferecendo uma cópia pirata de... Plataforma. De ótima qualidade, alegra-se, e por saber que a pirataria tornou possível a circulação da obra proibida pela China. Mas lamenta que seus filmes não possam ter carreira normal e serem exibidos nos cinemas. 

Há outros momentos de emoção. Nenhum deles comparável à recordação da memória do pai, já morto. Jia se lembra de que o pai teve problemas com a Revolução Cultural quando um dos seus diários pessoais cai nas mãos dos comissários e trechos são considerados “reacionários”. Foi mandado para reeducação. E, quando soube do teor do cinema que o filho começava a fazer, lamentou e previu que ele teria problemas. Nesse depoimento, a voz de Jia Zhangke, pela primeira e última vez, fica embargada. 

No resto todo do filme, ele parece uma pessoa alegre, despojada, simples, sem qualquer estrelismo, e dono de um senso de humor que, provavelmente, o equipou para enfrentar situações complicadas. 

Essa percepção pessoal do personagem é mesclada a trechos de seus filmes e também a passagens mais reflexivas sobre sua obra. Numa delas, Jia faz uma declaração surpreendente. Diz que, durante uma filmagem, se tudo flui de maneira calma e sem problemas, começa a ficar preocupado. Pelo contrário, se dificuldades começam a surgir, ou se, por momentos, não sabe como continuar, aí sim percebe que segue pelo caminho certo. Como se a adversidade fosse o estímulo necessário para fazer a intuição e a criatividade funcionarem. 

Esse personagem complexo é retratado com inteireza pelo documentário. Jia Zhangke é um caso particular do cinema contemporâneo. Na apoteose do cinema-espetáculo, aposta numa arte de teor humanista. É muito preocupado com a questão da forma e da linguagem cinematográficas, como todo cineasta deve ser. Mas não faz da forma um fetiche dedicado ao vazio porque seu cinema é ancorado em sua gente, amigos, velhas vizinhas de Fenyang, na família, em operários despossuídos pela precarização do trabalho na nova China. No real, em suma, com seus encantos e sofrimentos e, sobretudo, com suas contradições. Jia é, para muitos, um dos principais criadores em atividade e, para Walter Salles, o mais poderoso cineasta atual. Ganha, com este documentário, um filme à sua altura.

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